A grade já estava no chão, e uma escada
de metal fora colocada abaixo da abertura na parede. Morgan subira os degraus e
começara a enfiar-se pela abertura, tarefa que se mostrou difícil até para o
garoto magrelo.
- Não se preocupe -
avisou um dos pesquisadores do grupo - assim que você andar uns dois metros, o
duto fica bem maior.
Morgan então iluminou
o local com a lanterna e constatou que aquilo era verdade. Pôde ver claramente
que os dutos ficavam muito mais largos depois, mas isso ainda não o deixava
tranquilo. Todos lhe falaram que não haveria problema algum em andar pelos
dutos, mas Morgan ainda achava-os frágeis demais. Sua motivação fora as pessoas
do lado de fora. Se ele não fizesse isso, quantas pessoas mais ficariam
robóticas e estranhas, controladas pelos Porta-Mentes?
Então lá foi ele,
espremendo-se pela abertura na parede. Morgan já estava praticamente todo
dentro do duto, apenas suas pernas ainda estavam para fora, quando um homem
apareceu na porta, dizendo-lhes para esperar um pouco, pois novas descobertas
haviam sido feitas.
Todos olharam-no, o homem então disse:
- Minha equipe
conseguiu conectar com o computador por um breve momento, cerca de cinco
minutos, não conseguimos muita coisa, mas descobrimos que dois dos dez núcleos
de processamento do computador gigante estão queimados. Não faz sentido em
mandar esse jovem até o computador sem núcleos novos para fazer a substituição.
É claro que não podemos ter certeza, mas é possível que isto esteja causando o
problema, então não custa tentar, já que alguém vai até lá, de qualquer
forma...
Todos concordaram com
o homem e assim começou o processo de saída do duto, onde Morgan foi ajudado
por James e Zoe. Cada um puxou o garoto por uma perna, para que ele pudesse
sair mais rapidamente. Morgan mal entrara e já estava completamente sujo,
quando saiu seu cabelo e sua camisa estavam todos cobertos de pó.
James e o homem
acabam sumindo pelos corredores do andar 15N, atrás de conseguir novos núcleos
de processamento para o computador gigante. Morgan sacudiu o cabelo e bateu
suas roupas para remover um pouco do pó, depois seguiu para o sexto andar, junto
com Zoe e o restante das pessoas.
Para Zoe, aquilo tudo
era novidade, afinal, aquele era uma das construções mais tecnológicas de Hory.
Enquanto todos conversavam, Zoe estava quieta olhando ao redor.
Quando o elevador
finalmente alcançou o sexto andar, todos saíram do elevador, Morgan falou para
Zoe:
- É aqui que eu
trabalho todos os dias. Mais especificamente naquela salinha ali - e apontou
para o lugar.
- Esse lugar é tão
legal! Eu nunca vi tantas paredes de vidro antes!
Neste momento, Tom
apareceu. Saiu de uma das salas à esquerda de onde estavam.
- E este é Tom. O
robô de James.
- Aaah! Ele é tããão bonitiiinho!
Tom então chegou,
dizendo:
- Olá Bruno. Olá
Mark. Olá Judy. Olá Cindy. Olá Rafael. - nem mesmo Morgan sabia que esses eram
os nomes do pessoal da equipe de pesquisa. O robô então virou na direção de
Morgan e Zoe e continuou - Olá Morgan. Olá… Uhmm, você eu não conheço, não está
nem nos meus registros de temporários... Como entrou aqui? É um intruso?
INTRUSO! INTRUSO! INTRUSO! - o robô começou a gritar enquanto soava uma sirene.
Uma pequena lâmpada vermelha em sua cabeça começou a piscar, e todos naquele
andar olharam na direção deles.
- Tom, para! Esta é
Zoe, minha amiga. James permitiu que ela entrasse no prédio. Para!
O robô então parou
com os barulhos, mas virou para Zoe e seguiu fazendo perguntas:
- Por que então você
não tem uma credencial? Heim?
- Eu, eu nem sabia
que eu tinha que ter uma credencial! James estava com pressa e me disse para ir
junto, e eu fui!
Tom então acessou as câmeras de
monitoramento e pôde ver e ouvir o momento em que James permitiu o acesso de
Zoe, então ele mesmo iria fazer um crachá de autorização para a garota. Zoe
seguiu o robô um pouco confusa, mas logo ela estava rindo e conversando
alegremente com o serzinho de lata.
Enquanto Zoe fazia sua credencial e se
familiarizava com o local, Morgan foi procurar James para ver se eles tinham
novidades a respeito dos núcleos. James estava em sua sala, conversando
alegremente com o rapaz que havia levado as notícias sobre os núcleos. Pelo
jeito tudo parecia ter dado certo. Assim que Morgan apareceu na porta da sala,
os dois olharam-no e James já foi falando:
- Morgan! Temos boas
notícias! Conseguimos achar dois núcleos do mesmo modelo para substituir no
computador. Eles estão a algumas horas de distância, mas um pessoal já saiu com
um sonto voador para buscá-los. Acho que em cerca de duas ou três horas eles
estarão de vota!
- Que bom! -
respondeu Morgan - Fico feliz que tenham encontrado! Vou tentar descobrir mais
sobre os dutos, então.
Morgan, na verdade,
estava detestando esta ideia. Ele não estava nem um pouco contente por ter de
se arrastar por túneis pequenos e sujos durante uma quantidade relativa de
tempo. A única coisa que fazia com que ele fosse, era saber que ele evitaria
que mais pessoas sofressem por causa dos Porta-Mentes.
Apesar de não terem a
planta dos dutos de ventilação que levavam ao computador, Morgan e Zoe
começaram a olhar as plantas dos dutos do restante do prédio para poder ter uma
noção de como eles eram. Novamente viram o que a equipe de pesquisadores já
tinha falado para Morgan, que todos os dutos são mais estreitos próximo às
saídas, mas que são mais espaçosos nas extensões.
- Você não se importa
de se arrastar por esses dutos sozinho? - perguntou Zoe de repente.
- Bem, não posso
dizer que estou contente, mas tenho de fazer isso. - Respondeu o jovem.
- Morgan, eu também
quero ir até o computador.
- O que? Não, Zoe,
essa não é uma boa ideia… - respondeu o rapaz rapidamente.
- Por que não? Eu não
gostaria de entrar nesses dutos sozinha! Você nem sabe direito como chegar ao
lugar, vai ter que fazer o caminho todo sozinho carregando os dois núcleos. Tom
me disse que eles são bem grandes! Eu quero ajudar. Queria ir com você.
- Zoe, não sei se é
uma boa ideia, nós nem sabemos se é seguro, estes dutos são antigos.
- Por isso mesmo! Se
algo acontecer, pelo menos somos duas pessoas!
O garoto ficou
pensativo. A garota não estava falando nenhuma mentira, mas ao mesmo tempo era
perigoso demais e ele não sabia tão bem como lidar com garotas. E se ela visse
uma aranha nos dutos e começasse a chorar, o que ele faria?
Morgan não teve tempo
de responder à sua própria pergunta, pois James apareceu na porta da sala com
um sorriso de orelha a orelha, dizendo-lhes que os núcleos chegaram.
- Que bom, James! E
olha só, nós também temos novidades. Eu vou com Morgan até o computador! -
disse Zoe.
- Mas que beleza! Acho uma ótima ideia!
Vamos lá, então! - respondeu James antes mesmo que Morgan pudesse abrir a boca
para falar.
Morgan não estava
contente com isto, mas acabou não falando nada, se ela realmente queria ir era
melhor que fosse com ele, apesar de parecer loucura, ela estava certa também,
ele ir sozinho seria uma tarefa difícil e ele até que gostava da ideia de ter
uma companhia.
Eles então desceram
para o andar 15N, e ao chegar, foram para a pequena e antiga sala novamente. A
escada ainda estava lá e sobre a mesa encontravam-se duas caixas de papelão,
segundo James, eram os novos núcleos de processamento. As caixas não passavam
pela abertura do duto de ar, portanto precisaram abri-las e levar os núcleos
sem a embalagem, o que significava que tinham que tomar muito mais cuidado.
Levaram alguns
minutos para organizar-se, pegaram as lanternas e as plantas e começaram a
tentar passar pela entrada do duto de ar. Primeiro foi Morgan, o garoto disse
que era melhor que ele fosse à frente, pois seria mais seguro para Zoe, mas a
verdade é que ele não ficaria nada confortável em ter de olhar o bumbum da
garota por todo o caminho. Ele teve mais facilidade em entrar no duto, pois já
tinha ideia de onde segurar-se e apoiar-se, Zoe levou uns minutos a mais, mas
conseguiu entrar sem grandes problemas.
Para saber quais
dutos levavam até o computador eles usavam as plantas de dutos como um mapa.
Marcaram a sala por onde entraram e marcavam cada vez que o duto se dividia. Se
alguma dessas divisões não estivesse na planta, eles sabiam que era por ali que
deviam seguir.
Arrastar-se por canos
não era um processo rápido, Zoe e Morgan moviam-se o mais rápido possível, mas
ainda assim lentamente, enquanto conversavam sobre qualquer coisa e conheciam
melhor um ao outro. Depois de uma hora, os garotos ainda não haviam chegado ao
computador e não faziam ideia de quanto ainda faltava. Zoe achou que o ar
estava mais pesado, mas difícil de respirar, mas imaginou que fosse por causa
da poeira e não falou nada.
Cerca de cinco
minutos depois que Zoe fez essa constatação, Morgan notou que o duto
estreitava-se novamente. Isso era um bom sinal, significava que estavam
chegando.
Somente quando ele
chegou perto da grade é que se deu conta de que sair do duto por ali seria
muito mais difícil que entrar. Ele estaria de frente para a saída e a
probabilidade de cair de cara no chão era muito grande.
Morgan removeu a
grade de proteção e espiou pela abertura. Ambos ouviam um barulho de máquina,
mas o lugar estava tão escuro que Morgan não enxergava praticamente nada, só
enxergava uma silhueta alta de algo que deveria ser parte do computador, e isto
porque alguma coisa verde brilhava atrás daquelas peças. O garoto então deixou
o núcleo que levava para trás e saiu lentamente pela abertura. Assim que ele
passou até a cintura seus medos se confirmaram, a gravidade empurrou-o para
baixo e só o que o garoto pôde ver foi o chão se aproximando muito rápido.
- Você está bem? -
perguntou Zoe.
- Aham. Dê-me os
núcleos e então eu te ajudo a sair.
E assim fizeram.
Morgan pegou os núcleos e o restante das coisas que haviam levado, colocou tudo
no chão cuidadosamente e ajudou Zoe a sair do duto, com muito mais sucesso do
que ele saíra. Morgan notara o quanto o ar parecia pesado e difícil de respirar,
mas achou que fosse a sua ansiedade.
Os dois então pegaram
suas lanternas e olharam em volta. Agora sim podiam ver o grande computador,
que ocupava a sala toda, exceto o espaço onde caminhavam. Parte do computador
era circular e estendia-se para o meio da sala, dividindo-a em duas partes. Era
nessa parte circular que ficavam os núcleos de processamento.
Zoe deu a volta no computador, em
direção à luz verde, e para a sua surpresa, viu uma porta não muito grande com
uma placa escrito “SAÍDA” imediatamente acima.
- Morgan! Uma saída!
- gritou a garota, extremamente contente e indo em direção à porta.
- Que ótimo! - respondeu o rapaz, já
tentando achar os núcleos queimados - Pelo menos não teremos que voltar pelos
dutos apertados!
Zoe então tenta
abrira a porta sem sucesso.
- Não abre? -
perguntou Morgan, ouvindo o barulho que Zoe fez.
- Não. - respondeu a garota, desapontada -
mas peraí, tem um pequeno monitor aqui ao lado.
A garota olhou para a
pequena caixinha grudada na parede, bem ao lado da porta. Ela dizia: “PORTA
LACRADA PELO SISTEMA”.
- Morgan, acho que
vamos ter de voltar pelos dutos mesmo. Pelo jeito este computador aí é que
trancou a porta.
E com isso ela foi
ajudar Morgan a procurar os núcleos queimados. Zoe se sentia estranhamente
cansada. Não que ela não esperasse que arrastar-se pelos dutos não fosse
cansá-la, mas ela estava anormalmente cansada, tanto que poderia deitar no chão
e dormir ali mesmo.
- Zoe! Achei um! Me
ajuda aqui? - falou Morgan animado e Zoe foi rapidamente ajudá-lo a remover o
núcleo queimado e substituir com um dos novos.
Após fazer a troca,
Zoe voltou para o lado da porta, em busca do segundo núcleo queimado, enquanto
Morgan terminava de olhar os que estavam do seu lado. Por sorte, a busca não
durou muito. Morgan olhou o núcleo seguinte do que recém haviam trocado e ali
estava o segundo núcleo queimado.
- Zoe! Achei! Me
ajuda de novo! - novamente falou Morgan animado, até que enfim eles poderiam ir
para casa!
A garota não
respondeu.
- Zoe! - chamou Morgan novamente enquanto dava a volta no computador.
Morgan mal deu a
volta e ficou apavorado. Zoe estava caída no chão. Ele foi rapidamente até ela
e notou que a garota estava respirando, mas estava muito branca. Morgan então se
apressou para trocar o segundo núcleo e pedir socorro.
- Por que diabos não
pensamos em trazer algum dispositivo para comunicação? - falou Morgan para si
mesmo enquanto substituía rapidamente o dispositivo. - Isso foi muita, muita
burrice, eu não devia ter deixado Zoe vir também. Sabia que não era seguro.
Pronto, só encaixar aqui e…
No exato momento em que Morgan encaixou
o núcleo novo, um barulho de trava veio da porta de saída. Ele correu até lá e
viu a seguinte mensagem no monitor: “PORTA ABERTA”.
O garoto abriu a porta rapidamente,
querendo tirar Zoe dali o quanto antes, uma lufada de ar fresco e leve entra
pela porta, mas ele se depara com uma sala minúscula. Usando a lanterna, ele
pôde ver que a sala era uma espécie de poço, com uma escada de metal fixada em
uma das paredes. Olhando para cima podia-se ver uma luz fraca entrando.
Morgan levou Zoe para a sala arejada e
escorou-a na parede. Pegou sua lanterna e subiu as escadas o mais rápido que
pôde, ainda assim, levou um minuto inteiro para chegar ao topo. Deparou-se
então com uma grade um pouco maior que a saída de ventilação, mas somente o
suficiente para uma pessoa de tamanho normal passar. Parecia fazer séculos que
ninguém utilizava aquela passagem, tamanha fora a força que Morgan teve que fazer
para abrir a grade. Quando conseguiu, saiu para uma salinha tão antiga quanto
aquela pela qual entrara, também com cara de escritório, algumas caixas com
papeis espalhavam-se pela sala, mas não parecia que pessoas frequentavam o
local com frequência.
A porta tinha uma abertura de vidro, e
era de lá que vinha uma luz fraca. Morgan chegou perto da porta e constatou que
estava no fim de um corredor, tentou abrir a porta, mas estava trancada, então
começou a bater na porta e gritar por socorro. Ele não sabia o que acontecera
com Zoe e nem por quanto tempo ela sobreviveria naquele estado.
Logo apareceram James e o restante do
pessoal, saindo de uma sala algumas portas para a esquerda. Eles também viram
que a porta estava trancada, por isso disseram para Morgan afastar-se, pois
iriam arrombar a porta.
Quando a porta se abriu, Morgan falou
sobre Zoe e os enfermeiros do prédio foram chamados. Em questão de minutos eles
apareceram no andar onde estavam, e desceram pela abertura do chão. Os
enfermeiros logo gritaram pela passagem, dizendo que Zoe estava bem. Segundo
eles, a garota desmaiara por causa da baixa taxa de oxigênio na sala, e logo
que ela recebeu a máscara, retomou a consciência. Em cerca de cinco minutos ela
já estava subindo pela escada.
- Agora vem a pior parte - disse James - esperar!
E assim fizeram. Esperaram e
monitoraram diversos Porta-Mentes durante três dias, nenhum deles havia se
modificado. Parecia-lhes que o problema realmente fora solucionado. Só queriam
esperar algum tempo mais para avisar aos Horyanos que os Porta-Mentes eram
seguros novamente.
Enquanto isso, Morgan e Zoe conversavam
todos os dias. Era mais do que Morgan já tinha conversado com qualquer pessoa
antes e ele estava se sentindo estranhamente feliz com isso.
Mais três dias se
passaram, e um comunicado foi ao ar em todos os meios de comunicação, enquanto isso, Morgan e Zoe reuniam-se no sexto andar da Mind Corporation,
comemorando o sucesso da operação. O comunicado dizia:
“Caros cidadãos de Hory. Viemos alegremente avisar que os Porta-Mentes
podem voltar a ser utilizados com segurança. Pedimos desculpas pelo grande inconveniente
causado pela descontinuidade do uso dos dispositivos, e agradecemos pela
compreensão. Mind Corporation.”
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