Após o término do almoço, Morgan foi trabalhar. No estágio, ele era um rapaz exemplar, se dedicava ao máximo às suas pesquisas e sempre fazia tudo que lhe pediam com perfeição. É claro que ele adorava o que ele fazia, Morgan, de fato, ficava contente enquanto estava no estágio, mas no fundo de sua mente, o inconsciente também fazia com que ele se dedicasse na espera de um aumento, para que pudesse realizar o sonho de ter um sonto o quanto antes.
O ônibus parou, como sempre, a duas quadras de distância do seu local de trabalho. Morgan seguiu caminhando, e ao chegar em frente ao grande prédio de vidro, com quinze andares de altura e mais dez no subsolo, viu grandes letreiros verdes com prateado, escrito “Mind Corporation” que ficavam bem no topo do prédio. Morgan notou algo de estranho, sem saber exatamente o que. Ao mesmo tempo em que tudo parecia normal, tudo também parecia quieto demais.
Morgan entrou no prédio, deu oi para a recepcionista e escaneou sua mão para poder entrar no elevador. Apertou o botão do quinto andar, e o elevador lhe respondeu, com uma voz feminina:
- Desculpe, você não pode acessar este andar.
Não existiam catracas nem nada semelhante, pois todos os elevadores e portas, com exceção da porta de entrada principal, só funcionavam com a leitura das digitais, e dava acesso somente à quem fosse permitido.
- Ops, andar errado! - Morgan falou para si mesmo, apertando o número seis.
E lá foi o elevador, subindo seis andares. Morgan ficou olhando para a vista panorâmica da cidade que o elevador propiciava, tal como fazia todos os dias.
- Seja bem-vindo ao sexto andar! Espero que tenha um ótimo dia! - Disse-lhe o elevador quando Morgan saia pela porta, disperso, pensando em como os prédios da cidade estavam bem cuidados.
Foi somente quando Morgan chegou na porta de sua sala que ele notou que não havia ninguém no seu andar inteiro. Ele olhou para os lados, através das paredes de vidro que o cercavam, e não viu nenhum ser humano em todo o setor, apenas Tom, o robô assistente de seu chefe que estava esperando em sua sala.
- Bom dia, Tom. - Disse Morgan ao robô.
- Bom dia, Morgan - respondeu Tom com uma voz sintética quase perfeitamente humana - George, o seu chefe, me pediu para lhe dizer que todos no setor foram convocados para uma reunião de emergência, exceto os estagiários. Acho que seremos só você e eu aqui hoje. A propósito, parabéns! - e ao falar isso, vários papeis picados coloridos saíram por uma pequena abertura na cabeça de Tom, sendo automaticamente recolhidos quando chegavam ao chão, pois Tom, além de assistente, tinha um dispositivo semelhante a um aspirador, que servia para limpar o chão enquanto exercia outras tarefas.
- Obrigada por lembrar - respondeu Morgan, rindo - vou seguir para minha pesquisa, então.
A atual pesquisa de Morgan consistia em melhorar a qualidade e velocidade em que os pensamentos eram transferidos para o Porta-Mentes. Morgan e o restante do pessoal que trabalhava em sua equipe haviam descoberto uma forma de fazer isso, e estavam implementando em dispositivos para teste.
Morgan sentou-se e iniciou seu trabalho do dia, que consistia em pegar alguns Porta-Mentes e reprogramá-los, acrescentando a parte nova de código para que depois pudessem testar a eficiência dos mesmos. Logo que iniciou, Morgan notou que o código que estava no Porta-Mentes não condizia nem com o código antigo, nem com o novo, mas como aquele Porta-Mentes estava na pilha para reprogramação, ele ignorou a diferença e começou a inserir o novo código. O mais provável era que alguém tivesse feito algum outro teste com aquele dispositivo, e depois colocado de volta na pilha.
Cerca de uma hora depois, Morgan terminou a reprogramação do primeiro Porta-mentes, e pegou o próximo. Para sua surpresa, o segundo Porta-Mentes também não estava como deveria. Dessa vez, o código não condizia nem com o código antigo, nem com o novo, e nem com o código que estava no Porta-Mentes anterior.
- De novo? - perguntou Morgan a si mesmo - O que foi que fizeram com esta pilha de Porta-Mentes?
Novamente, ignorando a diferença, Morgan começou a reprogramação e cerca de uma hora depois, terminou o segundo Porta-Mentes, passando para o terceiro.
Morgan pegou o próximo dispositivo e mais uma vez o código estava diferente de todos os outros.
- Essa não. Tem algo de esquisito aqui...
Morgan deixou o terceiro Porta-Mentes de lado e começou a checar cada um dos outros da pilha. Havia mais ou menos quinze Porta-Mentes, e nenhum deles estava com o código que deveria estar. Além disso, cada dispositivo tinha um código diferente dos outros. Morgan imaginou que alguém estivesse lhe pregando uma peça, afinal, era seu aniversário e não era normal não ter ninguém no escritório mas então parou para pensar e notou que ninguém teria tempo de reprogramar todos em uma manhã, mesmo que fosse para lhe pregar uma peça, ainda assim, resolveu checar com Tom.
- Tom! - Chamou Morgan - pode vir aqui um instante?
- Em que posso ajudá-lo, Morgan?
- Você sabe se alguém atualizou estes Porta-Mentes hoje de manhã?
- Deixe-me checar meu banco de dados - respondeu o robô, ficando mudo por alguns instantes. Tom, fazia um serviço muito importante no setor onde ficava, ele guardava um registro das atividades de cada funcionário, incluindo horários de chegada e saída. - Não, ninguém mexeu nestes Porta-Mentes, Morgan. Mais alguma coisa?
- Sim, você sabe onde está acontecendo a reunião com o pessoal do setor?
- Morgan, eu tenho a resposta para a sua pergunta, porém, James - James era o chefe de Morgan e dono de Tom - marcou esta informação como confidencial, e eu só posso falar para quem é autorizado.
- Certo - respondeu o jovem, achando aquilo muito suspeito. - Vou checar na recepção.
O robô virou-se e voltou para a sua atividade anterior, enquanto Morgan dirigia-se para os elevadores. O que ele queria era que eles pregassem a tal peça de uma vez. Até que seria divertido, afinal, era seu primeiro aniversário na Mind Corporation, mas ele realmente queria fazer o seu trabalho e estava confuso com os códigos trocados dos Porta-Mentes.
Ao chegar no elevador, apertou o botão que levava até a portaria, mas logo que as portas se fecharam, decidiu checar no lugar mais óbvio. As salas de reunião no quarto andar, se realmente houvesse uma reunião, era lá que todos estariam.
Apertou então o botão de número quatro e quando as portas se abriram ele se deparou com diversas salas com paredes de vidro. Havia pelo menos dez salas, todas com grandes mesas ovais, feitas especialmente para reuniões. E todas vazias.
Morgan nem chegou a sair do elevador. E se o tivesse feito, teria ouvido diversas vozes e notado que na verdade, haviam reuniões estavam acontecendo ali, em cada uma das salas existentes. As paredes de vidro destas salas eram equipadas com SOF (Sistema de Ocupação Falsa), que consistia em projetar uma imagem nos vidros, fazendo com que as pessoas que olhassem de fora enxergassem coisas diferentes do que estava acontecendo. Os SOFs de todas as salas estavam no modo “vazio” e por isso, Morgan viu as salas vazias ao invés de ver as pessoas que as estavam ocupando.
O elevador fechou as portas e continuou a descida até o saguão de entrada. Ao chegar lá, Morgan se dirigiu até a moça no balcão de informações a qual ele cumprimentou no início da tarde.
- Oi. tudo bem?
- Oi - respondeu a moça de forma estranha, olhando petrificada para frente. Morgan olhou na direção que ela estava olhando, mas não viu nada demais. Apenas as portas do prédio, como sempre.
- Você saberia me dizer onde o pessoal do quinto andar está se reunindo?
A recepcionista virou a cabeça para olhá-lo de uma forma robótica e esquisita.
- Não - respondeu.
- Tem certeza? Moça? - A recepcionista continuava a olhá-lo com olhos vazios, com se estivesse desprovida de qualquer sentimento e só depois de alguns segundos é que respondeu.
- Sim, tenho certeza.
A recepcionista estava, de fato, agindo de maneira muito esquisita e quando Morgan olhou ao seu redor, viu que outras duas pessoas que estavam sentadas nas cadeiras da recepção também estavam completamente paradas e com aquele mesmo olhar vazio, olhando fixamente para algo que não existia. Morgan não deu muita bola, afinal, era o fim do mês e nessa época, mesmo com os Porta-Mentes, as pessoas começam a se preocupar com as contas.
- Essa aí ficou esquisita de repente - sussurrou o segurança, que saiu de seu posto para ir ao banheiro. - Se você quiser algo, melhor pedir a outra pessoa.
- Obrigada - respondeu Morgan. Na verdade, não havia com quem falar, o jovem queria saber onde estava o seu chefe e queria descobrir o que estava havendo. Porque ele não pôde fazer o upgrade, porque os Porta-Mentes estavam com códigos esquisitos e quem os teria programado mas pelo visto, teria de esperar.
O garoto então voltou para o sexto andar, onde tudo continuava igual, ninguém havia voltado da tal reunião secreta.
O garoto resolveu que não iria reprogramar mais nenhum Porta-Mentes, iria esperar seu chefe para mostrá-lo o que estava acontecendo. Ele olhou em volta, procurando algo para fazer, e resolveu arrumar umas gavetas de arquivos.
Sua mente estava longe, pensando no que poderia estar acontecendo. Cada vez mais Morgan, achava que havia algo de errado com os Porta-Mentes, algo que não tinha nada a ver com a "reunião". Essa quase certeza se baseava tanto nos códigos mudados quanto no upgrade que Morgan não fizera pela manhã. Morgan era um jovem muito, mas muito cauteloso, e e refletindo sobre isso, decidiu que não iria mais utilizar o dispositivo.
A tarde passou e chegou a hora de Morgan ir para casa. Ninguém havia voltado da reunião até aquela hora. Ele se dirigiu aos elevadores e desceu, querendo chegar em casa o quanto antes.
Alguns andares abaixo, o elevador parou e um garoto, com mais ou menos a mesma idade de Morgan, entrou porta a dentro. O garoto parecia assustado, se encolheu em um canto e não disse nada, apenas olhou para Morgan com olhos que demonstravam medo. Morgan acabou virando-se para o garoto e pedindo se estava tudo bem.
- Oi! Ah! É um alívio saber que você não está hipnotizado igual aos outros! - respondeu o garoto.
- Hipnotizado? - perguntou Morgan, confuso.
- Sim! Eu estou com medo. Hoje de manhã meus três tutores estavam normais, mas depois que fomos almoçar, dois deles voltaram assim, esquisitos, e o outro saiu da sala e não voltou mais! Eu confesso - o menino baixou o tom de voz para um sussurro - me escondi no banheiro e fiquei lá a tarde toda, espiando por uma fresta na porta, e o pior de tudo é que os meus tutores não fizeram nada! Mal se moveram! A tarde toda!
- Calma. Você tem certeza disso? - perguntou Morgan, segurando-se para não rir do outro rapaz, até que lembrou-se da recepcionista e das outras pessoas na recepção. - Peraí, esses seus tutores... Eles por acaso estavam meio robóticos? Sem falar nada e com olhares vagos?
- Sim! Você também viu pessoas assim? Eles só podem estar hipnotizados! isso me assusta! - disse o jovem, tendo um calafrio de medo.
Neste momento, as portas do elevador se abriram e ambos os garotos caminharam para fora, continuando a conversa.
- Agora lembrei que a moça da recepção agiu estranhamente mais cedo. - Morgan apontou para a recepcionista, que continuava na mesma posição que estava mais cedo. - E vi outros dois homens sentados, praticamente imóveis, ali naquelas cadeiras. Será que está acontecendo algo? -
- Não sei, mas essas pessoas estão me dando medo! Sem falar no chamado que teve hoje de manhã. Anunciaram pelos auto-falantes de todos os setores, pelo que sei, que haveria uma reunião geral, então todo mundo saiu e ficamos só eu e meus tutores, já que eu não fui efetivado ainda.
- Ah, então há mesmo uma reunião.
- Sim. Como assim? Você não notou que sua sala tinha menos pessoas?
- Notei sim, é só que... Deixa pra lá. - Morgan ficou envergonhado de contar sobre seu aniversário.
Eles então atravessaram o saguão e Morgan foi para o ponto de ônibus, tal como fazia todos os dias, enquanto o outro garoto foi pelo lado oposto, dizendo um "tchau" salpicado de medo. No caminho ele não pôde evitar de reparar nas pessoas, a maioria delas parecia normal mas ele viu quatro pessoas agindo estranho, olhando fixo para frente e sem expressão nos rostos. Logo passou seu ônibus, e Morgan parou-o, querendo chegar logo em casa.
No caminho, Morgan pensou e repensou sobre os acontecimentos do dia e por fim, após pensar em tudo que acontecera e no quão estranho tudo parecia, decidiu não utilizar mais seu Porta-Mentes, pelo menos até que pudesse falar com alguém da Mind Corporation. Ele então pensou em falar para seus pais fazerem o mesmo, e isso lembrou-lhe de sua mãe.
A mãe de Morgan era uma senhora estressada por natureza. Mesmo tendo o Porta-Mentes para depositar seus pensamentos estressantes, ainda era difícil para ela conter o estresse. Convencê-la a deixar de usar o Porta-Mentes, mesmo que temporariamente, seria algo difícil, mas Morgan era um rapaz cauteloso, e por sorte, adquirira esta característica de seu pai, então no momento em que explicasse para seu pai o que estava acontecendo, certamente seu pai o ajudaria a convencer a sua mãe.
Morgan logo chegou em casa, seus pais estavam na cozinha, com sorrisos enormes, segurando um bolo de aniversário feito pela mãe de Morgan, que tinha duas velas em cima, marcando o número dezoito. Quando o aniversariante entrou na cozinha, seus pais cantaram parabéns, e todos comeram o bolo e conversaram sobre diversos assuntos.
Mais tarde, Morgan explicou o que acontecera no trabalho e falou para seus pais sobre sua ideia de que as pessoas pudessem estar ficando “robóticas” por causa dos Porta-Mentes. O pai de Morgan também ficou preocupado, tal como o filho previra, e decidiu guardar os Porta-Mentes de todos dentro de uma gaveta. Eles sabiam que a mãe de Morgan ia querer o Porta-Mentes de volta, então a gaveta que escolheu era uma com chave, guardaram os dispositivos dos três lá dentro e a chave ficou com o pai de Morgan.
Os três jantaram juntos. É desnecessário falar que o assunto principal da noite foi a abstinência de Porta-Mentes. Depois do jantar Morgan subiu para o seu quarto para fazer o dever de casa, mas não conseguia tirar os acontecimentos do dia da cabeça. Ele então lembrou-se de Zoe e sentiu um aperto. Poderia ela ter ficado “robótica” também?
Ele então ligou o computador e entrou no Blaah. Ainda confuso com a forma de utilizar o website, ele abriu a janelinha que dizia “mensagens” para tentar falar com Zoe.
“Oi Zoe, como foi o resto do seu dia?” foi a sua mensagem inicial. Passaram-se trinta segundos sem que ela respondesse, então ele assumiu que ela não estivesse online no momento. Mandou então outra mensagem: “O meu foi bem confuso, acho que há algo de errado com os Porta-Mentes”.
No momento em que Morgan enviou a mensagem, apareceu no cantinho da tela, uma mensagem dizendo que Zoe estava digitando algo.
Ela lhe contou sobre o seu dia e de como foi um dia normal. Eles conversaram por horas e puderam se conhecer melhor, e Morgan tentou convencê-la a parar de utilizar o Porta-Mentes mas a garota riu e não se importou com isso. Eles conversaram até muito tarde, e depois, Morgan foi direto dormir.