Chegou a
segunda-feira, neste dia Morgan não tinha aula, mas a ansiedade estava tomando
conta do pobre garoto, que acabara se envolvendo inteiramente com a situação e
decidira ir para o trabalho ainda de manhã.
Desceu as
escadas até chegar à cozinha para que pudesse comer algo antes de sair mas
quando pisou na sala, Morgan parou por um breve instante, lembrou-se de Zoe. À
sua maneira, a garota havia se recusado a parar de utilizar o Porta-Mentes, mas
isso fora antes do comunicado público, será que agora ela já havia parado de
utilizá-lo?
“Mas então
porque ela não me respondeu?”
No dia
anterior, Morgan mandara uma mensagem no Blaah, apenas perguntando como ela
estava, e ela não havia respondido.
“Será que
ela também ficou robótica, igual àquelas pessoas?”
O garoto não
conhecia Zoe completamente, mas já conhecia o bastante para ter notado sua
personalidade forte. O melhor que Morgan podia fazer era esperar pela resposta
de Zoe, ou ela iria achá-lo chato demais.
Morgan então
seguiu para a cozinha, tomou café da manhã e saiu de casa.
Foi somente
quando chegou perto da parada de ônibus, onde o movimento de pessoas era maior,
que Morgan viu a dimensão do problema que estavam enfrentando. Mais ou menos metade
das pessoas que estavam nas ruas agia de forma estranha. Aqueles mesmos
sintomas estavam envolvidos, pessoas paradas, pessoas olhando fixo para algum
lugar, pessoas respondendo às perguntas monossilabicamente, somente quando
questionadas.
Ver isso
assustou o garoto. Neste momento, ele agradeceu mentalmente ao seu pai por ter
trancado os Porta-Mentes da família, ou certamente sua mãe seria uma destas
pessoas estranhas que ele agora via nas ruas, e possivelmente ele e seu pai
também.
O grande
problema que fazia cada vez mais pessoas ficarem assim parecia ser a
comodidade, que gerou um vício. Como falei no início da história, os
Porta-Mentes foram criados porque os Horyanos realmente necessitavam deles e
atualmente não havia um habitante de Hory sequer que não utilizasse o
dispositivo diversas vezes por dia. Com isso, as pessoas tornaram-se incapazes
de lidar com seu estresse sem o tal aparelhinho. Na situação pela qual Hory
está passando, muitos se recusam a parar de utilizar o Porta-Mentes, afinal,
todas as preocupações teriam que ser pensadas pela própria pessoa e isso era
algo inimaginável para estas pobres pessoas. Além disso, nunca antes a Mind
Corporation teve algum problema de qualquer tipo com os Porta-Mentes, o que
fazia as pessoas pensarem “não é nada, logo vão arrumar” e todos simplesmente
ignoravam os sintomas bizarros das pessoas ao seu redor.
Morgan
chegou em frente ao prédio, adentrou a portaria e fez o procedimento de
escaneamento das digitais. A recepcionista continuava lá parada, da mesma forma
como estivera na sexta-feira, e Morgan perguntou-se se ela havia passado o fim
de semana inteiro ali daquela forma.
Subiu até o
seu andar e encontrou a mesma quantidade de pessoas que estavam presentes na
sexta. Claramente, nenhuma daquelas pessoas estava usando o Porta-Mentes.
Morgan pôde sentir o estresse naquela sala, como se ele fosse tangível.
Foi então
falar com James, cujas expressões mostravam exaustão. James lhe disse que a
maior parte daqueles pesquisadores e cientistas haviam passado o final de
semana inteiro ali, tentando achar a solução do problema, todos cochilaram um
pouco em suas cadeiras, e este foi o máximo de descanso que tiveram mas ontem,
no fim da tarde, finalmente eles haviam descoberto algo.
- Existe
algo que não sabíamos que existia. Praticamente ninguém deste prédio imaginava.
- disse James enquanto Morgan ouvia atentamente - Nós descobrimos que os
Porta-Mentes são, de certa forma, controlados por um computador central.
- O que? -
Respondeu o jovem, incrédulo.
- É isso
mesmo que você ouviu, jovem. Os Porta-Mentes podem ser programados
individualmente, como se fossem independentes uns dos outros, mas acabamos de
descobrir que por algum motivo, os dispositivos se conectam com um computador
gigante, que está situado abaixo do andar 15 negativo, ele utiliza tecnologias
antigas, e por isso ocupa toda a extensão do prédio. Falamos com pessoas de
todos os setores, reunimos os chefes de todos os andares e todos alegam não
saber de nada.
- Impossível!
Isso não faz sentido! - Morgan começara a ficar levemente histérico com as
novas notícias - Esses chefes, todo o pessoal dos outros setores, alguém deve
saber de alguma coisa, eles devem estar mentindo, alguém tinha de saber sobre
este computador. Além do mais as pessoas que ficam no andar 15N já devem ter
visto ou escutado algo!
- Calma,
Morgan. - respondeu James - Tudo isto já foi considerado. Deixe-me contar tudo
o que já fizemos.
James então
inteirou Morgan do assunto. Começou falando que no sábado, alguns pesquisadores
de outros andares juntaram-se a eles, tentando unir mais cabeças para encontrar
o problema, dividiram-se em grupos e foram atrás de solucionar o
quebra-cabeças. Ainda no sábado à noite foi descoberto que a causa de os
Porta-Mentes estarem se auto-modificando era um sinal que estavam recebendo. Ao
rastrearem este sinal, todos ficaram surpresos por descobrir que a localização indicada
era exatamente o local onde ficava o prédio da Mind Corporation. Sendo assim,
cada equipe transformou-se numa equipe de busca e saíram pelo prédio,
procurando o local exato da emissão do sinal. Foi assim que chegaram ao andar
15N e o indicador ainda mostrava que o sinal estava mais abaixo. Todas as
pessoas que trabalhavam naquele andar foram entrevistadas, por assim dizer -
duas pessoas ficaram encarregadas de tentar descobrir se alguém sabia algo, se
já tinha visto ou ouvido algo relacionado com um andar a mais no prédio, mas
pelo que parecia, ninguém sabia de nada.
O andar onde
o computador estava não podia ser visto em nenhuma planta, nem pôde ser
encontrado nenhum acesso a ele. Pelo que parecia, o computador fora implantado
lá há muitos e muitos anos, quando o prédio fora fundado e caíra no
esquecimento desde então. Ninguém sabia ainda qual era o propósito daquela
máquina gigante, mas sabia-se que aquele computador era a causa dos problemas
atuais.
Essa
historia toda levou cerca de meia hora para ser contada à Morgan, que ouviu com
atenção e tirou suas dúvidas durante a conversa. Morgan então juntou-se à
equipe que normalmente trabalhava em seu andar e passou a ajudá-los na
investigação sobre o motivo do sinal.
O celular de
Morgan fez, de repente, um sinal estridente. Morgan não sabia do que se
tratava, e quando pegou o aparelho pra ver o que estava acontecendo notou que
havia uma mensagem no topo, dizendo: “Nova mensagem de Zoe”. Foi então que Morgan
percebeu que o aparelho fizera download automático do aplicativo do Blaah e Zoe
havia lhe mandado um recado.
“Oi Morgan.
Estou bem, e você? Queria te pedir desculpas, agora eu vejo o quando essa coisa
dos Porta-Mentes é séria, eu devia ter acreditado em você. Meus pais e eu
paramos de usar o aparelho no momento em que vimos o recado na TV”
“Bem também.
Não precisa se desculpar” - foi a resposta de Morgan - “Eu fico feliz que vocês
tenham parado com o dispositivo”
“Sim” -
prosseguiu a garota - “Também acho que foi uma boa. Mas ainda assim estou
inquieta, queria poder ajudar, estou aflita de ver todas estas pessoas agindo
estranho na rua”.
“Fique
tranquila, estamos trabalhando para consertar isso. Mas agora tenho que ir,
estou aqui na Mind ajudando o pessoal. A gente se fala depois”
“Está bem,
até depois, Morgan”.
“Até, Zoe”
Sem saber
muito bem o porquê, Morgan sentiu um enorme alívio por ter conversado com Zoe.
Assim, ele voltou para suas tarefas, com ainda mais vontade de concluí-las.
Passou-se
cerca de uma hora, e o celular de Morgan voltou a apitar. Ao olhar a mensagem,
Morgan ficou um tanto quanto perplexo. O recado dizia: “Estou na portaria da
Mind, pode vir falar comigo?”.
Morgan não hesitou
nem por um instante, chamou o elevador imediatamente e desceu para o saguão de
entrada. A porta do elevador mal abriu, e Morgan já avistou Zoe, em pé, ao lado
dos sofás, olhando pela janela.
- Zoe! - ele
chamou, ao se aproximar.
- Oi Morgan!
- Respondeu ela enquanto virava-se em direção a ele. - Eu estava entediada em
casa e resolvi sair para fazer umas compras, mas parece que todo mundo está
ultra estressado por não utilizar os Porta-Mentes, então eu resolvi passar aqui
para ver como estão as coisas.
- Uhhh,
estão indo… - Respondeu Morgan totalmente confuso - O pessoal conseguiu
descobrir algumas coisas, mas ainda não solucionaram o problema.
- Legal.
Vocês devem estar trabalhando duro nisso… Eu estou atrapalhando? - perguntou a
garota, envergonhada.
- Não, não,
eu estava lá ajudando o pessoal e… - as portas do elevador abriram-se de
repente e James e mais cinco pessoas apareceram na porta. O humor de seu chefe
era uma mistura de euforia com receio, como se estivesse escondendo algo.
- Morgan!
Venha conosco, acabamos de descobrir um possível acesso ao computador! - gritou
James, segurando a porta do elevador.
- Mas… Eu… -
Morgan não sabia se saia correndo ou se despedia-se de Zoe, olhou para os
lados, confuso.
- Vamos
logo! Traga sua amiga junto, se for o caso!
- Tá legal!
- respondeu o jovem, saindo em direção à porta do elevador.
Zoe não
estava entendendo nada, observou Morgan virar e sair e foi atrás. Morgan estava
tão confuso quanto Zoe, mesmo que o pessoal tivesse descoberto algo, por que
era tão importante que ele estivesse junto? “Até poucas horas atrás eu nem
sabia o que estava acontecendo!” pensou o garoto.
Ambos
entraram no elevador e James liberou a porta. Esta mal havia fechado quando
James começou a falar, muito rapidamente:
- Morgan,
esta equipe acaba de achar um possível acesso para o computador. Os dutos de
ventilação. Não é uma maravilha? - disse, sorrindo - não sei como não pensamos
nisto antes, não é? Todos os computadores precisam de ar limpo e fresco, este
também!
- Uhm,
claro, faz sentido. - respondeu Morgan entre as falas do chefe.
- Estes
dutos não estavam nas plantas, obviamente, mas os rapazes aqui colocaram uma
câmera robô nos dutos e descobriram dutos não mapeados no andar 15N. Os
sensores de calor mostraram que o ar que passa por estes dutos é em média cinco
graus mais elevado do que o ar dos outros dutos do prédio todo, ou seja, há uma
enorme possibilidade de que estes dutos estejam resfriando o nosso gigante
escondido.
As portas
então se abriram, fazendo com que James parasse de falar um pouco. Todos saíram
do elevador e seguiram o chefe por um longo corredor branco. Morgan não fazia
ideia de onde estavam indo, nunca antes havia estado num andar tão profundo no
prédio. Zoe estava mais perdida ainda, mas para ela, o lugar parecia ter saído
de filmes de ficção científica.
Não demorou
muito para que James começasse a falar novamente, dando mais detalhes técnicos
sobre o computador, o qual ele não havia falado antes. Por fim, entraram em uma
sala praticamente vazia, apenas uma velha mesa branca de metal e uma cadeira
giratória com estofado verde puído se encontravam na sala.
James
então virou-se para o grupo de pesquisadores, dirigindo-se à uma moça.
- É nesta
sala, certo? - perguntou ele.
- Sim, exatamente aqui. - respondeu a
moça, apontando para o canto da sala, que se encontrava às costas de Morgan.
Ao virar-se,
Morgan entendeu o porquê de terem chamado-o até o local, e o porquê da cara de
vergonha de seu chefe.
Uma pequena
grade tapava a abertura do duto de ar, muito próximo ao teto da sala. Em meio a
tantos pesquisadores adultos, a maioria casados - entenda-se casados como bem
alimentados -, Morgan era o único que teria alguma chance de passar por aquele
estreito buraco.
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