terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Parte 5 - Epílogo

     Acredita-se que o Louco descobriu na última hora que os Horyanos também possuíam componentes eletrônicos em seus cérebros, e ao destruir todos os Porta-Mentes, acabou-se destruindo toda a civilização do pobre planeta.    
     Por muito tempo pensou-se que este foi o fim de Hory, mas milhões e milhões de anos se passaram, e o planetinha ganhou vida novamente. Os seres que habitam o planeta agora, sequer imaginam que um dia isso tudo aconteceu. Essa nova civilização chamou o planeta de Terra, e sem saber do que se trata, chamou o que aconteceu com Hory de Big Bang.
     Pouco restou da civilização Horyana e praticamente nada disso é acessível ao povo Terrestre, a maior prova que os Terráqueos possuem de que Hory realmente existiu são as ossadas dos sontos, que por terem sido desenvolvidos com componentes orgânicos acabaram não se decompondo por completo. Hoje esse povo considera-os animais extintos e os chamaram de dinossauros, sem saber que eles eram na verdade máquinas com tecnologia muito avançada.
     Por algum motivo, o povo Terrestre tem medo de povos mais avançados, até hoje eles acham que não há e nem houve outros povos em outros planetas, especialmente não no planeta deles. O orgulho em pensar que os Terráqueos são a civilização mais avançada que já existiu os deixa com a autoestima alta, mas espera-se que a história de Hory venha à tona logo, pois os Terráqueos estão pouco a pouco começando a cometer os mesmos erros dos Horyanos.

Parte 4 - Novidades



 
Dois meses se passaram desde que Morgan e Zoe trocaram os núcleos de processamento do computador. Depois do acontecido, muitas coisas mudaram, Morgan fora efetivado na Mind Corporation e agora passara a receber um salário maior, ele e Zoe receberam um bônus em dinheiro por terem sido parte crucial da resolução do problema. Zoe também fora homenageada pela Mind Corporation e ambos apareceram em rede nacional juntamente com outras pessoas da equipe.
 Morgan pretendia usar o dinheiro extra para ajudar sua família, mas no dia em que o comunicado sobre os Porta-Mentes foi ao ar, o pai de Morgan foi contratado e recusou a ajuda do filho. Morgan acabou usando o dinheiro para dar entrada em um sonto e finalmente realizar seu sonho.
Era segunda-feira, o garoto acordou cedo e começou a sua rotina diária, que agora passara a ser diferente. Morgan tomou café da manhã com seu pai e saiu de casa em seu sonto. Passou na casa de Zoe, que agora era sua namorada, e levou-a para seu trabalho, então dirigiu-se aos grandes prédios da Mind Corporation para mais um dia de trabalho.
Apesar de terem solucionado o problema com os Porta-Mentes, a Mind Corporation continuava em busca do motivo pelo qual os dispositivos haviam se auto-modificado, portanto, havia muito trabalho a ser feito e os funcionários do prédio todo moviam-se para encontrar as respostas. Uma organização interna foi criada na empresa para ficar responsável pelas investigações a respeito do caso dos Porta-Mentes, este grupo foi chamado de GRPM, Grupo Responsável pelos Porta-Mentes, e era composto por James e outros seis funcionários.
Já havia passado do meio-dia. Morgan almoçara no trabalho, como fazia com frequência, e retornara ao sexto andar para continuar com seu dia de trabalho. Ele estava fazendo testes com alguns Porta-Mentes, quando seu computador desligou. Confuso, Morgan tentou ligá-lo novamente, sem sucesso. Olhou para os lados e viu que as pessoas das salas próximas também estavam olhando para os lados, com expressões confusas.
James então colocou a cabeça para fora da porta e gritou:
- Os computadores de vocês também desligaram?
Alguns com palavras e outros com um aceno de cabeça, todos concordaram.
As lâmpadas estavam todas acesas, o que significava que não era problema de energia, mas, ainda assim, James tentou ligar para o setor responsável por isso, somente para constatar que os telefones também não estavam funcionando.
À pedido de seu chefe, Morgan desceu até a recepção, buscando informações sobre o que estava acontecendo. Quando chegou ao térreo, deparou-se com um grupo de pessoas composto por funcionários de diversos setores conversando sobre os computadores terem desligado. Outras pessoas continuavam chegando, tanto dos andares superiores, quanto do subsolo, todas querendo saber sobre o mesmo assunto. Isso significava que o problema estava no prédio inteiro.
No andar 15N, o técnico responsável pelo monitoramento do computador gigante também viu a tela principal se apagar. O homem desceu rapidamente pela escada que Morgan descobrira no dia da troca dos núcleos, e ao se aproximar da porta da sala, notou um estranho brilho vermelho vindo da parte circular do computador.
Sem saber o que aquilo significava, o homem retornou ao seu posto e encontrou uma mensagem na tela que dizia:
“Processo de reprogramação concluído.”.
Neste instante, James e o restante do GRPM, surgiram pela porta do elevador no andar 15N, e ao ver a mensagem na tela, todos se olharam e saíram imediatamente, levando suas expressões aflitas.
Solicitaram ao setor de marketing que um aviso fosse ao ar, pedindo que pessoas parassem imediatamente de utilizar os Porta-Mentes e então foram para as salas de reunião. Fecharam-se lá por horas. Portas lacradas, ninguém mais tinha acesso àquelas salas, nem mesmo Tom, que geralmente entrava em qualquer lugar, ganhou permissão para entrar lá.
Horas depois, quando a reunião finalmente terminou, o grupo de homens saiu da sala com uma mistura de cansaço e preocupação no rosto, eles desceram para o saguão de entrada, que estava tomado por pessoas da imprensa, e fizeram um comunicado, onde James falou:
- Caros cidadãos Horyanos, pretendo ser breve e objetivo. Recentemente descobrimos um computador central que possui ligação direta com cada um dos Porta-Mentes de Hory. Ninguém sabia da existência desta máquina até cerca de um mês atrás. A verdade é que aparentemente o computador está mudando automaticamente a configuração dos dispositivos que vocês utilizam, então solicitamos que todos vocês parem de utilizá-los imediatamente. Os dispositivos tomarão conta da mente dos que continuarem a utilizar os Porta-Mentes, e infelizmente a Mind Corporation perdeu o controle sobre isto. A única forma que temos de parar o que está acontecendo, é destruindo os dispositivos, e faremos isto dentro de quatro dias.  Durante este tempo, pedimo-lhes que providenciem uma forma física de todo o conteúdo virtual que vocês tiverem e quiserem manter, pois será lançado um raio de ultraenergia sobre Hory que destruirá todos os componentes eletrônicos do planeta.
Sentimos muito por isso, mas infelizmente a Mind Corporation não tem mais o que fazer para reverter esta situação. Vocês receberão mais informações em breve.”
O problema que estavam enfrentando era muito sério e aparentemente irreversível, por isso James e o restante do GRPM haviam decidido por utilizar a última carta na manga. Estes raios ao quais ele se referira haviam sido pensados logo que o primeiro problema com os Porta-Mentes veio à tona. A Mind Corporation chegou à conclusão que deveria haver uma forma de acabar com os problemas nos Porta-Mentes, mesmo que essa solução fosse drástica, pois a grande maioria dos cidadãos Horyanos não parou de utilizar os Porta-Mentes quando solicitados e há um mês atrás, os danos foram muito grandes.
Quatro dias depois, os satélites estavam alinhados e prontos para lançar o raio. Após apertar o botão de comando no computador, a vida em Hory seria diferente, todos regrediriam muito sem o uso das tecnologias, as coisas eletrônicas teriam de ser reconstruídas, o que provavelmente levaria muitos anos e faria os Horyanos regressarem muito.
James estava em frente ao computador que daria este comando, angustiado por saber que não podia fazer mais nada além de apertar aquele botão e mudar o mundo como conheciam naquele momento.
Morgan passara os últimos quatro dias em casa, imprimindo fotos e textos que gostaria de guardar. Zoe estava fazendo a mesma coisa. Provavelmente a maior parte dos Horyanos fizera o mesmo, já que ninguém foi obrigado a ir trabalhar naqueles dias por este motivo.
Muitos estavam revoltados e foram às ruas, protestando contra a medida tomada. Outros não deram atenção ao comunicado e acabaram completamente loucos, dominados pelos Porta-Mentes e pelo computador gigante, mas a maioria estava em casa, guardando suas lembranças o mais rápido que conseguiam antes que tudo se perdesse.
Às quatro horas da tarde, todos os monitores ligaram-se em todas as ruas e casas, e uma contagem regressiva começou a ser mostrada nas telas. Faltavam cinco minutos.
Os números foram passando, e as pessoas na expectativa de saber como seria dali para frente. Faltavam agora dois minutos. Alguns corriam contra o tempo para conseguir imprimir fotografias que ficaram por último, outros jogavam os últimos momentos de seus jogos favoritos. Agora faltava apenas um minuto. Morgan ligou para Zoe pela última vez, querendo saber se ela conseguira salvar tudo. A garota disse que sim, e que agora ela e seus pais estavam esperando lançarem o raio.
Trinta segundos. James e os outros seis funcionários estavam prontos para lançar o raio. Neste momento, um homem com o cabelo desgrenhado e roupas velhas, conhecido na vizinhança como “o Louco” entrou pelas portas da Mind Corporation gritando:
- “NÃÃÃÃÃÃÃÃO!”
Era tarde demais. A ultraenergia fez com que todos os componentes eletrônicos parassem de funcionar, todos os Porta-Mentes agora estavam limpos e impossibilitados de utilizar, todas as televisões desligaram, os rádios pararam com suas transmissões, os computadores já não processavam mais, todos os dados se perderam. Inclusive os componentes dos cérebros das pessoas. Todos os cidadãos caíram no chão no exato momento em que o raio atingiu Hory.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Parte 3.2 - A aventura

A grade já estava no chão, e uma escada de metal fora colocada abaixo da abertura na parede. Morgan subira os degraus e começara a enfiar-se pela abertura, tarefa que se mostrou difícil até para o garoto magrelo.
- Não se preocupe - avisou um dos pesquisadores do grupo - assim que você andar uns dois metros, o duto fica bem maior.
            Morgan então iluminou o local com a lanterna e constatou que aquilo era verdade. Pôde ver claramente que os dutos ficavam muito mais largos depois, mas isso ainda não o deixava tranquilo. Todos lhe falaram que não haveria problema algum em andar pelos dutos, mas Morgan ainda achava-os frágeis demais. Sua motivação fora as pessoas do lado de fora. Se ele não fizesse isso, quantas pessoas mais ficariam robóticas e estranhas, controladas pelos Porta-Mentes?
            Então lá foi ele, espremendo-se pela abertura na parede. Morgan já estava praticamente todo dentro do duto, apenas suas pernas ainda estavam para fora, quando um homem apareceu na porta, dizendo-lhes para esperar um pouco, pois novas descobertas haviam sido feitas.
Todos olharam-no, o homem então disse:
- Minha equipe conseguiu conectar com o computador por um breve momento, cerca de cinco minutos, não conseguimos muita coisa, mas descobrimos que dois dos dez núcleos de processamento do computador gigante estão queimados. Não faz sentido em mandar esse jovem até o computador sem núcleos novos para fazer a substituição. É claro que não podemos ter certeza, mas é possível que isto esteja causando o problema, então não custa tentar, já que alguém vai até lá, de qualquer forma...
            Todos concordaram com o homem e assim começou o processo de saída do duto, onde Morgan foi ajudado por James e Zoe. Cada um puxou o garoto por uma perna, para que ele pudesse sair mais rapidamente. Morgan mal entrara e já estava completamente sujo, quando saiu seu cabelo e sua camisa estavam todos cobertos de pó.
            James e o homem acabam sumindo pelos corredores do andar 15N, atrás de conseguir novos núcleos de processamento para o computador gigante. Morgan sacudiu o cabelo e bateu suas roupas para remover um pouco do pó, depois seguiu para o sexto andar, junto com Zoe e o restante das pessoas.
            Para Zoe, aquilo tudo era novidade, afinal, aquele era uma das construções mais tecnológicas de Hory. Enquanto todos conversavam, Zoe estava quieta olhando ao redor.
            Quando o elevador finalmente alcançou o sexto andar, todos saíram do elevador, Morgan falou para Zoe:
- É aqui que eu trabalho todos os dias. Mais especificamente naquela salinha ali - e apontou para o lugar.
- Esse lugar é tão legal! Eu nunca vi tantas paredes de vidro antes!
            Neste momento, Tom apareceu. Saiu de uma das salas à esquerda de onde estavam.
- E este é Tom. O robô de James.
- Aaah! Ele é tããão bonitiiinho!
            Tom então chegou, dizendo:
- Olá Bruno. Olá Mark. Olá Judy. Olá Cindy. Olá Rafael. - nem mesmo Morgan sabia que esses eram os nomes do pessoal da equipe de pesquisa. O robô então virou na direção de Morgan e Zoe e continuou - Olá Morgan. Olá… Uhmm, você eu não conheço, não está nem nos meus registros de temporários... Como entrou aqui? É um intruso? INTRUSO! INTRUSO! INTRUSO! - o robô começou a gritar enquanto soava uma sirene. Uma pequena lâmpada vermelha em sua cabeça começou a piscar, e todos naquele andar olharam na direção deles.
- Tom, para! Esta é Zoe, minha amiga. James permitiu que ela entrasse no prédio. Para!
            O robô então parou com os barulhos, mas virou para Zoe e seguiu fazendo perguntas:
- Por que então você não tem uma credencial? Heim?
- Eu, eu nem sabia que eu tinha que ter uma credencial! James estava com pressa e me disse para ir junto, e eu fui!
Tom então acessou as câmeras de monitoramento e pôde ver e ouvir o momento em que James permitiu o acesso de Zoe, então ele mesmo iria fazer um crachá de autorização para a garota. Zoe seguiu o robô um pouco confusa, mas logo ela estava rindo e conversando alegremente com o serzinho de lata.
Enquanto Zoe fazia sua credencial e se familiarizava com o local, Morgan foi procurar James para ver se eles tinham novidades a respeito dos núcleos. James estava em sua sala, conversando alegremente com o rapaz que havia levado as notícias sobre os núcleos. Pelo jeito tudo parecia ter dado certo. Assim que Morgan apareceu na porta da sala, os dois olharam-no e James já foi falando:
- Morgan! Temos boas notícias! Conseguimos achar dois núcleos do mesmo modelo para substituir no computador. Eles estão a algumas horas de distância, mas um pessoal já saiu com um sonto voador para buscá-los. Acho que em cerca de duas ou três horas eles estarão de vota!
- Que bom! - respondeu Morgan - Fico feliz que tenham encontrado! Vou tentar descobrir mais sobre os dutos, então.
            Morgan, na verdade, estava detestando esta ideia. Ele não estava nem um pouco contente por ter de se arrastar por túneis pequenos e sujos durante uma quantidade relativa de tempo. A única coisa que fazia com que ele fosse, era saber que ele evitaria que mais pessoas sofressem por causa dos Porta-Mentes.
            Apesar de não terem a planta dos dutos de ventilação que levavam ao computador, Morgan e Zoe começaram a olhar as plantas dos dutos do restante do prédio para poder ter uma noção de como eles eram. Novamente viram o que a equipe de pesquisadores já tinha falado para Morgan, que todos os dutos são mais estreitos próximo às saídas, mas que são mais espaçosos nas extensões.
- Você não se importa de se arrastar por esses dutos sozinho? - perguntou Zoe de repente.
- Bem, não posso dizer que estou contente, mas tenho de fazer isso. - Respondeu o jovem.
- Morgan, eu também quero ir até o computador.
- O que? Não, Zoe, essa não é uma boa ideia… - respondeu o rapaz rapidamente.
- Por que não? Eu não gostaria de entrar nesses dutos sozinha! Você nem sabe direito como chegar ao lugar, vai ter que fazer o caminho todo sozinho carregando os dois núcleos. Tom me disse que eles são bem grandes! Eu quero ajudar. Queria ir com você.
- Zoe, não sei se é uma boa ideia, nós nem sabemos se é seguro, estes dutos são antigos.
- Por isso mesmo! Se algo acontecer, pelo menos somos duas pessoas!
            O garoto ficou pensativo. A garota não estava falando nenhuma mentira, mas ao mesmo tempo era perigoso demais e ele não sabia tão bem como lidar com garotas. E se ela visse uma aranha nos dutos e começasse a chorar, o que ele faria?
            Morgan não teve tempo de responder à sua própria pergunta, pois James apareceu na porta da sala com um sorriso de orelha a orelha, dizendo-lhes que os núcleos chegaram.
- Que bom, James! E olha só, nós também temos novidades. Eu vou com Morgan até o computador! - disse Zoe.
- Mas que beleza! Acho uma ótima ideia! Vamos lá, então! - respondeu James antes mesmo que Morgan pudesse abrir a boca para falar.
            Morgan não estava contente com isto, mas acabou não falando nada, se ela realmente queria ir era melhor que fosse com ele, apesar de parecer loucura, ela estava certa também, ele ir sozinho seria uma tarefa difícil e ele até que gostava da ideia de ter uma companhia.
            Eles então desceram para o andar 15N, e ao chegar, foram para a pequena e antiga sala novamente. A escada ainda estava lá e sobre a mesa encontravam-se duas caixas de papelão, segundo James, eram os novos núcleos de processamento. As caixas não passavam pela abertura do duto de ar, portanto precisaram abri-las e levar os núcleos sem a embalagem, o que significava que tinham que tomar muito mais cuidado.
            Levaram alguns minutos para organizar-se, pegaram as lanternas e as plantas e começaram a tentar passar pela entrada do duto de ar. Primeiro foi Morgan, o garoto disse que era melhor que ele fosse à frente, pois seria mais seguro para Zoe, mas a verdade é que ele não ficaria nada confortável em ter de olhar o bumbum da garota por todo o caminho. Ele teve mais facilidade em entrar no duto, pois já tinha ideia de onde segurar-se e apoiar-se, Zoe levou uns minutos a mais, mas conseguiu entrar sem grandes problemas.
            Para saber quais dutos levavam até o computador eles usavam as plantas de dutos como um mapa. Marcaram a sala por onde entraram e marcavam cada vez que o duto se dividia. Se alguma dessas divisões não estivesse na planta, eles sabiam que era por ali que deviam seguir.
            Arrastar-se por canos não era um processo rápido, Zoe e Morgan moviam-se o mais rápido possível, mas ainda assim lentamente, enquanto conversavam sobre qualquer coisa e conheciam melhor um ao outro. Depois de uma hora, os garotos ainda não haviam chegado ao computador e não faziam ideia de quanto ainda faltava. Zoe achou que o ar estava mais pesado, mas difícil de respirar, mas imaginou que fosse por causa da poeira e não falou nada.
            Cerca de cinco minutos depois que Zoe fez essa constatação, Morgan notou que o duto estreitava-se novamente. Isso era um bom sinal, significava que estavam chegando.
            Somente quando ele chegou perto da grade é que se deu conta de que sair do duto por ali seria muito mais difícil que entrar. Ele estaria de frente para a saída e a probabilidade de cair de cara no chão era muito grande.
            Morgan removeu a grade de proteção e espiou pela abertura. Ambos ouviam um barulho de máquina, mas o lugar estava tão escuro que Morgan não enxergava praticamente nada, só enxergava uma silhueta alta de algo que deveria ser parte do computador, e isto porque alguma coisa verde brilhava atrás daquelas peças. O garoto então deixou o núcleo que levava para trás e saiu lentamente pela abertura. Assim que ele passou até a cintura seus medos se confirmaram, a gravidade empurrou-o para baixo e só o que o garoto pôde ver foi o chão se aproximando muito rápido.
- Você está bem? - perguntou Zoe.
- Aham. Dê-me os núcleos e então eu te ajudo a sair.
            E assim fizeram. Morgan pegou os núcleos e o restante das coisas que haviam levado, colocou tudo no chão cuidadosamente e ajudou Zoe a sair do duto, com muito mais sucesso do que ele saíra. Morgan notara o quanto o ar parecia pesado e difícil de respirar, mas achou que fosse a sua ansiedade.
            Os dois então pegaram suas lanternas e olharam em volta. Agora sim podiam ver o grande computador, que ocupava a sala toda, exceto o espaço onde caminhavam. Parte do computador era circular e estendia-se para o meio da sala, dividindo-a em duas partes. Era nessa parte circular que ficavam os núcleos de processamento.
Zoe deu a volta no computador, em direção à luz verde, e para a sua surpresa, viu uma porta não muito grande com uma placa escrito “SAÍDA” imediatamente acima.
- Morgan! Uma saída! - gritou a garota, extremamente contente e indo em direção à porta.
- Que ótimo! - respondeu o rapaz, já tentando achar os núcleos queimados - Pelo menos não teremos que voltar pelos dutos apertados!
            Zoe então tenta abrira a porta sem sucesso.
- Não abre? - perguntou Morgan, ouvindo o barulho que Zoe fez.
      - Não. - respondeu a garota, desapontada - mas peraí, tem um pequeno monitor aqui ao lado.
            A garota olhou para a pequena caixinha grudada na parede, bem ao lado da porta. Ela dizia: “PORTA LACRADA PELO SISTEMA”.
- Morgan, acho que vamos ter de voltar pelos dutos mesmo. Pelo jeito este computador aí é que trancou a porta.
            E com isso ela foi ajudar Morgan a procurar os núcleos queimados. Zoe se sentia estranhamente cansada. Não que ela não esperasse que arrastar-se pelos dutos não fosse cansá-la, mas ela estava anormalmente cansada, tanto que poderia deitar no chão e dormir ali mesmo.
- Zoe! Achei um! Me ajuda aqui? - falou Morgan animado e Zoe foi rapidamente ajudá-lo a remover o núcleo queimado e substituir com um dos novos.
            Após fazer a troca, Zoe voltou para o lado da porta, em busca do segundo núcleo queimado, enquanto Morgan terminava de olhar os que estavam do seu lado. Por sorte, a busca não durou muito. Morgan olhou o núcleo seguinte do que recém haviam trocado e ali estava o segundo núcleo queimado.
- Zoe! Achei! Me ajuda de novo! - novamente falou Morgan animado, até que enfim eles poderiam ir para casa!
            A garota não respondeu.
- Zoe! - chamou Morgan novamente enquanto dava a volta no computador.
            Morgan mal deu a volta e ficou apavorado. Zoe estava caída no chão. Ele foi rapidamente até ela e notou que a garota estava respirando, mas estava muito branca. Morgan então se apressou para trocar o segundo núcleo e pedir socorro.
- Por que diabos não pensamos em trazer algum dispositivo para comunicação? - falou Morgan para si mesmo enquanto substituía rapidamente o dispositivo. - Isso foi muita, muita burrice, eu não devia ter deixado Zoe vir também. Sabia que não era seguro. Pronto, só encaixar aqui e…
No exato momento em que Morgan encaixou o núcleo novo, um barulho de trava veio da porta de saída. Ele correu até lá e viu a seguinte mensagem no monitor: “PORTA ABERTA”.
O garoto abriu a porta rapidamente, querendo tirar Zoe dali o quanto antes, uma lufada de ar fresco e leve entra pela porta, mas ele se depara com uma sala minúscula. Usando a lanterna, ele pôde ver que a sala era uma espécie de poço, com uma escada de metal fixada em uma das paredes. Olhando para cima podia-se ver uma luz fraca entrando.
Morgan levou Zoe para a sala arejada e escorou-a na parede. Pegou sua lanterna e subiu as escadas o mais rápido que pôde, ainda assim, levou um minuto inteiro para chegar ao topo. Deparou-se então com uma grade um pouco maior que a saída de ventilação, mas somente o suficiente para uma pessoa de tamanho normal passar. Parecia fazer séculos que ninguém utilizava aquela passagem, tamanha fora a força que Morgan teve que fazer para abrir a grade. Quando conseguiu, saiu para uma salinha tão antiga quanto aquela pela qual entrara, também com cara de escritório, algumas caixas com papeis espalhavam-se pela sala, mas não parecia que pessoas frequentavam o local com frequência.
A porta tinha uma abertura de vidro, e era de lá que vinha uma luz fraca. Morgan chegou perto da porta e constatou que estava no fim de um corredor, tentou abrir a porta, mas estava trancada, então começou a bater na porta e gritar por socorro. Ele não sabia o que acontecera com Zoe e nem por quanto tempo ela sobreviveria naquele estado.
Logo apareceram James e o restante do pessoal, saindo de uma sala algumas portas para a esquerda. Eles também viram que a porta estava trancada, por isso disseram para Morgan afastar-se, pois iriam arrombar a porta.
Quando a porta se abriu, Morgan falou sobre Zoe e os enfermeiros do prédio foram chamados. Em questão de minutos eles apareceram no andar onde estavam, e desceram pela abertura do chão. Os enfermeiros logo gritaram pela passagem, dizendo que Zoe estava bem. Segundo eles, a garota desmaiara por causa da baixa taxa de oxigênio na sala, e logo que ela recebeu a máscara, retomou a consciência. Em cerca de cinco minutos ela já estava subindo pela escada.
- Agora vem a pior parte - disse James - esperar!
E assim fizeram. Esperaram e monitoraram diversos Porta-Mentes durante três dias, nenhum deles havia se modificado. Parecia-lhes que o problema realmente fora solucionado. Só queriam esperar algum tempo mais para avisar aos Horyanos que os Porta-Mentes eram seguros novamente.
Enquanto isso, Morgan e Zoe conversavam todos os dias. Era mais do que Morgan já tinha conversado com qualquer pessoa antes e ele estava se sentindo estranhamente feliz com isso.
            Mais três dias se passaram, e um comunicado foi ao ar em todos os meios de comunicação, enquanto isso, Morgan e Zoe reuniam-se no sexto andar da Mind Corporation, comemorando o sucesso da operação. O comunicado dizia:
            “Caros cidadãos de Hory. Viemos alegremente avisar que os Porta-Mentes podem voltar a ser utilizados com segurança. Pedimos desculpas pelo grande inconveniente causado pela descontinuidade do uso dos dispositivos, e agradecemos pela compreensão. Mind Corporation.”

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Parte 3.1 - A Solução

Chegou a segunda-feira, neste dia Morgan não tinha aula, mas a ansiedade estava tomando conta do pobre garoto, que acabara se envolvendo inteiramente com a situação e decidira ir para o trabalho ainda de manhã.
Desceu as escadas até chegar à cozinha para que pudesse comer algo antes de sair mas quando pisou na sala, Morgan parou por um breve instante, lembrou-se de Zoe. À sua maneira, a garota havia se recusado a parar de utilizar o Porta-Mentes, mas isso fora antes do comunicado público, será que agora ela já havia parado de utilizá-lo?
“Mas então porque ela não me respondeu?”
No dia anterior, Morgan mandara uma mensagem no Blaah, apenas perguntando como ela estava, e ela não havia respondido.
“Será que ela também ficou robótica, igual àquelas pessoas?”
O garoto não conhecia Zoe completamente, mas já conhecia o bastante para ter notado sua personalidade forte. O melhor que Morgan podia fazer era esperar pela resposta de Zoe, ou ela iria achá-lo chato demais.
Morgan então seguiu para a cozinha, tomou café da manhã e saiu de casa.
Foi somente quando chegou perto da parada de ônibus, onde o movimento de pessoas era maior, que Morgan viu a dimensão do problema que estavam enfrentando. Mais ou menos metade das pessoas que estavam nas ruas agia de forma estranha. Aqueles mesmos sintomas estavam envolvidos, pessoas paradas, pessoas olhando fixo para algum lugar, pessoas respondendo às perguntas monossilabicamente, somente quando questionadas.
Ver isso assustou o garoto. Neste momento, ele agradeceu mentalmente ao seu pai por ter trancado os Porta-Mentes da família, ou certamente sua mãe seria uma destas pessoas estranhas que ele agora via nas ruas, e possivelmente ele e seu pai também.
O grande problema que fazia cada vez mais pessoas ficarem assim parecia ser a comodidade, que gerou um vício. Como falei no início da história, os Porta-Mentes foram criados porque os Horyanos realmente necessitavam deles e atualmente não havia um habitante de Hory sequer que não utilizasse o dispositivo diversas vezes por dia. Com isso, as pessoas tornaram-se incapazes de lidar com seu estresse sem o tal aparelhinho. Na situação pela qual Hory está passando, muitos se recusam a parar de utilizar o Porta-Mentes, afinal, todas as preocupações teriam que ser pensadas pela própria pessoa e isso era algo inimaginável para estas pobres pessoas. Além disso, nunca antes a Mind Corporation teve algum problema de qualquer tipo com os Porta-Mentes, o que fazia as pessoas pensarem “não é nada, logo vão arrumar” e todos simplesmente ignoravam os sintomas bizarros das pessoas ao seu redor.
Morgan chegou em frente ao prédio, adentrou a portaria e fez o procedimento de escaneamento das digitais. A recepcionista continuava lá parada, da mesma forma como estivera na sexta-feira, e Morgan perguntou-se se ela havia passado o fim de semana inteiro ali daquela forma.
Subiu até o seu andar e encontrou a mesma quantidade de pessoas que estavam presentes na sexta. Claramente, nenhuma daquelas pessoas estava usando o Porta-Mentes. Morgan pôde sentir o estresse naquela sala, como se ele fosse tangível.
Foi então falar com James, cujas expressões mostravam exaustão. James lhe disse que a maior parte daqueles pesquisadores e cientistas haviam passado o final de semana inteiro ali, tentando achar a solução do problema, todos cochilaram um pouco em suas cadeiras, e este foi o máximo de descanso que tiveram mas ontem, no fim da tarde, finalmente eles haviam descoberto algo.
- Existe algo que não sabíamos que existia. Praticamente ninguém deste prédio imaginava. - disse James enquanto Morgan ouvia atentamente - Nós descobrimos que os Porta-Mentes são, de certa forma, controlados por um computador central.
- O que? - Respondeu o jovem, incrédulo.
- É isso mesmo que você ouviu, jovem. Os Porta-Mentes podem ser programados individualmente, como se fossem independentes uns dos outros, mas acabamos de descobrir que por algum motivo, os dispositivos se conectam com um computador gigante, que está situado abaixo do andar 15 negativo, ele utiliza tecnologias antigas, e por isso ocupa toda a extensão do prédio. Falamos com pessoas de todos os setores, reunimos os chefes de todos os andares e todos alegam não saber de nada.
- Impossível! Isso não faz sentido! - Morgan começara a ficar levemente histérico com as novas notícias - Esses chefes, todo o pessoal dos outros setores, alguém deve saber de alguma coisa, eles devem estar mentindo, alguém tinha de saber sobre este computador. Além do mais as pessoas que ficam no andar 15N já devem ter visto ou escutado algo!
- Calma, Morgan. - respondeu James - Tudo isto já foi considerado. Deixe-me contar tudo o que já fizemos.
James então inteirou Morgan do assunto. Começou falando que no sábado, alguns pesquisadores de outros andares juntaram-se a eles, tentando unir mais cabeças para encontrar o problema, dividiram-se em grupos e foram atrás de solucionar o quebra-cabeças. Ainda no sábado à noite foi descoberto que a causa de os Porta-Mentes estarem se auto-modificando era um sinal que estavam recebendo. Ao rastrearem este sinal, todos ficaram surpresos por descobrir que a localização indicada era exatamente o local onde ficava o prédio da Mind Corporation. Sendo assim, cada equipe transformou-se numa equipe de busca e saíram pelo prédio, procurando o local exato da emissão do sinal. Foi assim que chegaram ao andar 15N e o indicador ainda mostrava que o sinal estava mais abaixo. Todas as pessoas que trabalhavam naquele andar foram entrevistadas, por assim dizer - duas pessoas ficaram encarregadas de tentar descobrir se alguém sabia algo, se já tinha visto ou ouvido algo relacionado com um andar a mais no prédio, mas pelo que parecia, ninguém sabia de nada.
O andar onde o computador estava não podia ser visto em nenhuma planta, nem pôde ser encontrado nenhum acesso a ele. Pelo que parecia, o computador fora implantado lá há muitos e muitos anos, quando o prédio fora fundado e caíra no esquecimento desde então. Ninguém sabia ainda qual era o propósito daquela máquina gigante, mas sabia-se que aquele computador era a causa dos problemas atuais.
Essa historia toda levou cerca de meia hora para ser contada à Morgan, que ouviu com atenção e tirou suas dúvidas durante a conversa. Morgan então juntou-se à equipe que normalmente trabalhava em seu andar e passou a ajudá-los na investigação sobre o motivo do sinal.
O celular de Morgan fez, de repente, um sinal estridente. Morgan não sabia do que se tratava, e quando pegou o aparelho pra ver o que estava acontecendo notou que havia uma mensagem no topo, dizendo: “Nova mensagem de Zoe”. Foi então que Morgan percebeu que o aparelho fizera download automático do aplicativo do Blaah e Zoe havia lhe mandado um recado.
“Oi Morgan. Estou bem, e você? Queria te pedir desculpas, agora eu vejo o quando essa coisa dos Porta-Mentes é séria, eu devia ter acreditado em você. Meus pais e eu paramos de usar o aparelho no momento em que vimos o recado na TV”
“Bem também. Não precisa se desculpar” - foi a resposta de Morgan - “Eu fico feliz que vocês tenham parado com o dispositivo”
“Sim” - prosseguiu a garota - “Também acho que foi uma boa. Mas ainda assim estou inquieta, queria poder ajudar, estou aflita de ver todas estas pessoas agindo estranho na rua”.
“Fique tranquila, estamos trabalhando para consertar isso. Mas agora tenho que ir, estou aqui na Mind ajudando o pessoal. A gente se fala depois”
“Está bem, até depois, Morgan”.
“Até, Zoe”
Sem saber muito bem o porquê, Morgan sentiu um enorme alívio por ter conversado com Zoe. Assim, ele voltou para suas tarefas, com ainda mais vontade de concluí-las.
Passou-se cerca de uma hora, e o celular de Morgan voltou a apitar. Ao olhar a mensagem, Morgan ficou um tanto quanto perplexo. O recado dizia: “Estou na portaria da Mind, pode vir falar comigo?”.
Morgan não hesitou nem por um instante, chamou o elevador imediatamente e desceu para o saguão de entrada. A porta do elevador mal abriu, e Morgan já avistou Zoe, em pé, ao lado dos sofás, olhando pela janela. 
- Zoe! - ele chamou, ao se aproximar.
- Oi Morgan! - Respondeu ela enquanto virava-se em direção a ele. - Eu estava entediada em casa e resolvi sair para fazer umas compras, mas parece que todo mundo está ultra estressado por não utilizar os Porta-Mentes, então eu resolvi passar aqui para ver como estão as coisas.
- Uhhh, estão indo… - Respondeu Morgan totalmente confuso - O pessoal conseguiu descobrir algumas coisas, mas ainda não solucionaram o problema.
- Legal. Vocês devem estar trabalhando duro nisso… Eu estou atrapalhando? - perguntou a garota, envergonhada.
- Não, não, eu estava lá ajudando o pessoal e… - as portas do elevador abriram-se de repente e James e mais cinco pessoas apareceram na porta. O humor de seu chefe era uma mistura de euforia com receio, como se estivesse escondendo algo. 
- Morgan! Venha conosco, acabamos de descobrir um possível acesso ao computador! - gritou James, segurando a porta do elevador.
- Mas… Eu… - Morgan não sabia se saia correndo ou se despedia-se de Zoe, olhou para os lados, confuso.
- Vamos logo! Traga sua amiga junto, se for o caso!
- Tá legal! - respondeu o jovem, saindo em direção à porta do elevador.
Zoe não estava entendendo nada, observou Morgan virar e sair e foi atrás. Morgan estava tão confuso quanto Zoe, mesmo que o pessoal tivesse descoberto algo, por que era tão importante que ele estivesse junto? “Até poucas horas atrás eu nem sabia o que estava acontecendo!” pensou o garoto.
Ambos entraram no elevador e James liberou a porta. Esta mal havia fechado quando James começou a falar, muito rapidamente:
- Morgan, esta equipe acaba de achar um possível acesso para o computador. Os dutos de ventilação. Não é uma maravilha? - disse, sorrindo - não sei como não pensamos nisto antes, não é? Todos os computadores precisam de ar limpo e fresco, este também!
- Uhm, claro, faz sentido. - respondeu Morgan entre as falas do chefe.
- Estes dutos não estavam nas plantas, obviamente, mas os rapazes aqui colocaram uma câmera robô nos dutos e descobriram dutos não mapeados no andar 15N. Os sensores de calor mostraram que o ar que passa por estes dutos é em média cinco graus mais elevado do que o ar dos outros dutos do prédio todo, ou seja, há uma enorme possibilidade de que estes dutos estejam resfriando o nosso gigante escondido.
As portas então se abriram, fazendo com que James parasse de falar um pouco. Todos saíram do elevador e seguiram o chefe por um longo corredor branco. Morgan não fazia ideia de onde estavam indo, nunca antes havia estado num andar tão profundo no prédio. Zoe estava mais perdida ainda, mas para ela, o lugar parecia ter saído de filmes de ficção científica.
Não demorou muito para que James começasse a falar novamente, dando mais detalhes técnicos sobre o computador, o qual ele não havia falado antes. Por fim, entraram em uma sala praticamente vazia, apenas uma velha mesa branca de metal e uma cadeira giratória com estofado verde puído se encontravam na sala.
            James então virou-se para o grupo de pesquisadores, dirigindo-se à uma moça.
- É nesta sala, certo? - perguntou ele.
- Sim, exatamente aqui. - respondeu a moça, apontando para o canto da sala, que se encontrava às costas de Morgan.
Ao virar-se, Morgan entendeu o porquê de terem chamado-o até o local, e o porquê da cara de vergonha de seu chefe.
Uma pequena grade tapava a abertura do duto de ar, muito próximo ao teto da sala. Em meio a tantos pesquisadores adultos, a maioria casados - entenda-se casados como bem alimentados -, Morgan era o único que teria alguma chance de passar por aquele estreito buraco.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Parte 2.2 - A descoberta

     O despertador tocou, marcando seis horas da manhã. Era sexta-feira e Morgan tinha aula. O jovem desligou o despertador e tateou ao lado de seu abajur, buscando o Porta-Mentes. Lembrou-se então de que seu pai havia guardado os dispositivos na gaveta da sala, e foi forçado a mudar a sua rotina diária. Normalmente, a primeira coisa que faria seria utilizar o Porta-Mentes mas hoje foi direto tomar café da manhã.
Quando seu pai ainda estava trabalhando, pai e filho faziam companhia um ao outro no café da manhã, mas desde que seu pai perdeu o emprego, Morgan se alimentava sozinho e então ia para a aula. E foi o que fez naquele dia.
     Geralmente ele prestava muita atenção no que era dito pelo professor, mas desta vez, muitas cosias estavam em sua cabeça e Morgan acabou passando todo o tempo da aula perdido em pensamentos sobre Porta-Mentes.
Ao sair da aula, Morgan notou que estava preocupado demais com o assunto dos dispositivos, e não tendo um para utilizar e livrar-se destes pensamentos, decidiu ir direto para o trabalho. Avisou seus pais que não iria estar em casa para o almoço, comprou um sanduíche no caminho, e seguiu para o ponto de ônibus, indo em direção à Mind Corporation.
Finalmente chegando ao seu andar, as portas do elevador se abriram para revelar um terço das pessoas que geralmente estavam ali, o que era melhor do que no dia anterior, mas ainda assim não era normal. Ele então olhou em volta e notou que felizmente seu chefe estava sentado em sua mesa habitual.
Morgan foi conversar com ele, começando por pedir onde estavam os outros funcionários do setor. George estava estranhamente alegre, como se tudo estivesse completamente normal, apenas respondeu à Morgan que o restante do setor não iria ao trabalho naquele dia. Morgan deu continuidade às suas perguntas, e começou a contar ao  supervisor sobre os Porta-Mentes que estavam com códigos diferentes do que deveriam, mas foi só quando apontou na direção dos dispositivos que notou que eles não estavam mais lá. Seu chefe disse que eles foram levados para reprogramação automática e completou dizendo alegremente e com um sorriso:
- Rapaz, porque você está tão preocupado? Não há nada de errado com as coisas, você está tirando isso de algum lugar em sua cabeça!
Apesar da alegria que o chefe demonstrava, Morgan podia sentir que havia algo de errado. O próprio contentamento desnecessário revelava isso, pois George raramente agia daquela forma. Por isso, Morgan falou:
- Senhor George, com todo o respeito. Ontem foi um dia muito estranho. Começou com um aviso de que não poderiam fazer update dos Porta-Mentes, depois, cada um dos Porta-Mentes estava com um código diferente que não condizia com nada que eu tivesse visto antes, e isso tudo sem ninguém no setor inteiro. Sei que sou só um estagiário, mas estou preocupado, e afinal, fiz dezoito anos ontem, eu já posso tratar de assuntos sérios de trabalho.
Seu chefe olhou em volta e imediatamente as paredes de vidro da sala escureceram, de forma que ninguém de fora pudesse ver que os dois estavam conversando. Imediatamente seu rosto alegre se transformou em uma feição preocupada.
- Você está certo, rapaz. É bobagem esconder isso de você já que você já notou sozinho. Sei que você não fez o update ontem e sugiro que você não o faça. Algo muito estranho está acontecendo, e ninguém sabe como nem porque. Passamos o dia ontem levantando possibilidades, e nem tínhamos notado a mudança nos códigos, eu só notei isso quando voltei para cá, e torci para que você não tivesse notado, mas sabia que eu estaria errado. Hoje pela manhã foi constatado que os Porta-Mentes estão se auto-modificando, e o número de dispositivos com este defeito está crescendo exponencialmente. Os efeitos que isso está causando nas pessoas é alarmante, mas ninguém pode saber que isto está sendo causado pelos dispositivos.
Morgan foi tomado por uma aflição enorme. Ele estava certo, e isso não era algo bom. Realmente havia algo de errado com os Porta-Mentes e naquele momento, o que James lhe falara estava soando mais preocupante do que nunca.
- Mas as pessoas parecem robôs sem sentimento! 
- Hey, eu estou aqui! - resmungou Tom ao fundo, sem que ninguém ligasse para ele e Morgan continuou:
- Isso me parece algo muito perigoso para a população, não podemos simplesmente ficar quietos e fingir que não sabemos de nada!
- Morgan, eu sei disso. Nós estamos desesperados atrás da solução deste problema, nos ajude com as pesquisas, mas por favor, não diga nada à ninguém por enquanto. Logo teremos de nos pronunciar, de qualquer maneira. Enquanto isso, lhe darei uns tópicos que levantamos ontem e gostaria que você pesquisasse a respeito, quanto mais informações tivermos, mais rápido solucionaremos este problema.
Um tanto quanto inconformado, Morgan aceitou o que o chefe lhe disse e foi para sua sala fazer seu trabalho. O fim da tarde chegou e Morgan se obrigou a ir para casa sem muitas novidades. No caminho, Morgan notou como o número de pessoas agindo estranhamente havia aumentado. Algumas estavam simplesmente paradas nas calçadas, outras andavam de trás para frente, e outras caminhavam roboticamente, mas todas estas com olhares vazios, como se não estivessem conscientes do que estavam fazendo.


O dia seguinte chegou, e pela primeira vez, Morgan ficou aflito por não ter de trabalhar, afinal, era sábado, mas ele estava realmente envolvido com os acontecimentos recentes da Mind Corporation e naquele momento preferia ir trabalhar de graça à ter de ficar em casa, mas infelizmente ele não tinha acesso à nenhuma sala nos finais de semana. Passou o dia ajudando seu pai a reorganizar o galpão de ferramentas.
Tanto Morgan quanto seu pai estavam cansados, mas só pararam com a atividade quando estava tão escuro que eles já não enxergavam. Ambos entraram em casa e foram tomar um banho, então comeram e sentaram-se com a mãe de Morgan na sala de estar.
     Estavam assistindo à televisão normalmente quando um chamado para um comunicado importante apareceu na televisão. Este comunicado pedia à toda população Horyana que descontinuassem o uso dos Porta-Mentes temporariamente, alegando que havia um erro nos dispositivos que estava afetando o cérebro dos usuários. A voz masculina do comunicado disse que a Mind Corporation afirmou já estar trabalhando para desfazer o erro, e que em poucos dias, voltaria ao normal.
“Não demoraram para se pronunciar, deve ser mais grave do que eu imaginava” - pensou Morgan.

Parte 2.1 - O trabalho

Após o término do almoço, Morgan foi trabalhar. No estágio, ele era um rapaz exemplar, se dedicava ao máximo às suas pesquisas e sempre fazia tudo que lhe pediam com perfeição. É claro que ele adorava o que ele fazia, Morgan, de fato, ficava contente enquanto estava no estágio, mas no fundo de sua mente, o inconsciente também fazia com que ele se dedicasse na espera de um aumento, para que pudesse realizar o sonho de ter um sonto o quanto antes. 
O ônibus parou, como sempre, a duas quadras de distância do seu local de trabalho. Morgan seguiu caminhando, e ao chegar em frente ao grande prédio de vidro, com quinze andares de altura e mais dez no subsolo, viu grandes letreiros verdes com prateado, escrito “Mind Corporation” que ficavam bem no topo do prédio. Morgan notou algo de estranho, sem saber exatamente o que. Ao mesmo tempo em que tudo parecia normal, tudo também parecia quieto demais.
Morgan entrou no prédio, deu oi para a recepcionista e escaneou sua mão para poder entrar no elevador. Apertou o botão do quinto andar, e o elevador lhe respondeu, com uma voz feminina: 
- Desculpe, você não pode acessar este andar. 
Não existiam catracas nem nada semelhante, pois todos os elevadores e portas, com exceção da porta de entrada principal, só funcionavam com a leitura das digitais, e dava acesso somente à quem fosse permitido.
- Ops, andar errado! - Morgan falou para si mesmo, apertando o número seis.
E lá foi o elevador, subindo seis andares. Morgan ficou olhando para a vista panorâmica da cidade que o elevador propiciava, tal como fazia todos os dias.
- Seja bem-vindo ao sexto andar! Espero que tenha um ótimo dia! - Disse-lhe o elevador quando Morgan saia pela porta, disperso, pensando em como os prédios da cidade estavam bem cuidados.
Foi somente quando Morgan chegou na porta de sua sala que ele notou que não havia ninguém no seu andar inteiro. Ele olhou para os lados, através das paredes de vidro que o cercavam, e não viu nenhum ser humano em todo o setor, apenas Tom, o robô assistente de seu chefe que estava esperando em sua sala.
- Bom dia, Tom. - Disse Morgan ao robô.
- Bom dia, Morgan - respondeu Tom com uma voz sintética quase perfeitamente humana - George, o seu chefe, me pediu para lhe dizer que todos no setor foram convocados para uma reunião de emergência, exceto os estagiários. Acho que seremos só você e eu aqui hoje. A propósito, parabéns! - e ao falar isso, vários papeis picados coloridos saíram por uma pequena abertura na cabeça de Tom, sendo automaticamente recolhidos quando chegavam ao chão, pois Tom, além de assistente, tinha um dispositivo semelhante a um aspirador, que servia para limpar o chão enquanto exercia outras tarefas.
- Obrigada por lembrar - respondeu Morgan, rindo - vou seguir para minha pesquisa, então.
A atual pesquisa de Morgan consistia em melhorar a qualidade e velocidade em que os pensamentos eram transferidos para o Porta-Mentes. Morgan e o restante do pessoal que trabalhava em sua equipe haviam descoberto uma forma de fazer isso, e estavam implementando em dispositivos para teste.
Morgan sentou-se e iniciou seu trabalho do dia, que consistia em pegar alguns Porta-Mentes e reprogramá-los, acrescentando a parte nova de código para que depois pudessem testar a eficiência dos mesmos. Logo que iniciou, Morgan notou que o código que estava no Porta-Mentes não condizia nem com o código antigo, nem com o novo, mas como aquele Porta-Mentes estava na pilha para reprogramação, ele ignorou a diferença e começou a inserir o novo código. O mais provável era que alguém tivesse feito algum outro teste com aquele dispositivo, e depois colocado de volta na pilha.
Cerca de uma hora depois, Morgan terminou a reprogramação do primeiro Porta-mentes, e pegou o próximo. Para sua surpresa, o segundo Porta-Mentes também não estava como deveria. Dessa vez, o código não condizia nem com o código antigo, nem com o novo, e nem com o código que estava no Porta-Mentes anterior.
- De novo? - perguntou Morgan a si mesmo - O que foi que fizeram com esta  pilha de Porta-Mentes?
Novamente, ignorando a diferença, Morgan começou a reprogramação e cerca de uma hora depois, terminou o segundo Porta-Mentes, passando para o terceiro.
Morgan pegou o próximo dispositivo e mais uma vez o código estava diferente de todos os outros. 
- Essa não. Tem algo de esquisito aqui...
Morgan deixou o terceiro Porta-Mentes de lado e começou a checar cada um dos outros da pilha. Havia mais ou menos quinze Porta-Mentes, e nenhum deles estava com o código que deveria estar. Além disso, cada dispositivo tinha um código diferente dos outros. Morgan imaginou que alguém estivesse lhe pregando uma peça, afinal, era seu aniversário e não era normal não ter ninguém no escritório mas então parou para pensar e notou que ninguém teria tempo de reprogramar todos em uma manhã, mesmo que fosse para lhe pregar uma peça, ainda assim, resolveu checar com Tom.
- Tom! - Chamou Morgan - pode vir aqui um instante?
- Em que posso ajudá-lo, Morgan?
- Você sabe se alguém atualizou estes Porta-Mentes hoje de manhã?
- Deixe-me checar meu banco de dados - respondeu o robô, ficando mudo por alguns instantes. Tom, fazia um serviço muito importante no setor onde ficava, ele guardava um registro das atividades de cada funcionário, incluindo horários de chegada e saída. - Não, ninguém mexeu nestes Porta-Mentes, Morgan. Mais alguma coisa?
- Sim, você sabe onde está acontecendo a reunião com o pessoal do setor?
- Morgan, eu tenho a resposta para a sua pergunta, porém, James - James era o chefe de Morgan e dono de Tom - marcou esta informação como confidencial, e eu só posso falar para quem é autorizado.
- Certo - respondeu o jovem, achando aquilo muito suspeito. - Vou checar na recepção.
O robô virou-se e voltou para a sua atividade anterior, enquanto Morgan dirigia-se para os elevadores. O que ele queria era que eles pregassem a tal peça de uma vez. Até que seria divertido, afinal, era seu primeiro aniversário na Mind Corporation, mas ele realmente queria fazer o seu trabalho e estava confuso com os códigos trocados dos Porta-Mentes.
Ao chegar no elevador, apertou o botão que levava até a portaria, mas logo que as portas se fecharam, decidiu checar no lugar mais óbvio. As salas de reunião no quarto andar, se realmente houvesse uma reunião, era lá que todos estariam.
Apertou então o botão de número quatro e quando as portas se abriram ele se deparou com diversas salas com paredes de vidro. Havia pelo menos dez salas, todas com grandes mesas ovais, feitas especialmente para reuniões. E todas vazias.
Morgan nem chegou a sair do elevador. E se o tivesse feito, teria ouvido diversas vozes e notado que na verdade, haviam reuniões estavam acontecendo ali, em cada uma das salas existentes. As paredes de vidro destas salas eram equipadas com SOF (Sistema de Ocupação Falsa), que consistia em projetar uma imagem nos vidros, fazendo com que as pessoas que olhassem de fora enxergassem coisas diferentes do que estava acontecendo. Os SOFs de todas as salas estavam no modo “vazio” e por isso, Morgan viu as salas vazias ao invés de ver as pessoas que as estavam ocupando.
O elevador fechou as portas e continuou a descida até o saguão de entrada. Ao chegar lá, Morgan se dirigiu até a moça no balcão de informações a qual ele cumprimentou no início da tarde.
- Oi. tudo bem?
- Oi - respondeu a moça de forma estranha, olhando petrificada para frente. Morgan olhou na direção que ela estava olhando, mas não viu nada demais. Apenas as portas do prédio, como sempre.
- Você saberia me dizer onde o pessoal do quinto andar está se reunindo?
A recepcionista virou a cabeça para olhá-lo de uma forma robótica e esquisita.
- Não - respondeu.
- Tem certeza? Moça? - A recepcionista continuava a olhá-lo com olhos vazios, com se estivesse desprovida de qualquer sentimento e só depois de alguns segundos é que respondeu.
- Sim, tenho certeza.
A recepcionista estava, de fato, agindo de maneira muito esquisita e quando Morgan olhou ao seu redor, viu que outras duas pessoas que estavam sentadas nas cadeiras da recepção também estavam completamente paradas e com aquele mesmo olhar vazio, olhando fixamente para algo que não existia. Morgan não deu muita bola, afinal, era o fim do mês e nessa época, mesmo com os Porta-Mentes, as pessoas começam a se preocupar com as contas.
- Essa aí ficou esquisita de repente - sussurrou o segurança, que saiu de seu posto para ir ao banheiro. - Se você quiser algo, melhor pedir a outra pessoa.
- Obrigada - respondeu Morgan. Na verdade, não havia com quem falar, o jovem queria saber onde estava o seu chefe e queria descobrir o que estava havendo. Porque ele não pôde fazer o upgrade, porque os Porta-Mentes estavam com códigos esquisitos e quem os teria programado  mas pelo visto, teria de esperar.
O garoto então voltou para o sexto andar, onde tudo continuava igual, ninguém havia voltado da tal reunião secreta.
O garoto resolveu que não iria reprogramar mais nenhum Porta-Mentes, iria esperar seu chefe para mostrá-lo o que estava acontecendo. Ele olhou em volta, procurando algo para fazer, e resolveu arrumar umas gavetas de arquivos.
Sua mente estava longe, pensando no que poderia estar acontecendo. Cada vez mais Morgan, achava que havia algo de errado com os Porta-Mentes, algo que não tinha nada a ver com a "reunião". Essa quase certeza se baseava tanto nos códigos mudados  quanto no upgrade que Morgan não fizera pela manhã. Morgan era um jovem muito, mas muito cauteloso, e e refletindo sobre isso, decidiu que não iria mais utilizar o dispositivo. 
A tarde passou e chegou a hora de Morgan ir para casa. Ninguém havia voltado da reunião até aquela hora. Ele se dirigiu aos elevadores e desceu, querendo chegar em casa o quanto antes. 
Alguns andares abaixo, o elevador parou e um garoto, com mais ou menos a mesma idade de Morgan, entrou porta a dentro. O garoto parecia assustado, se encolheu em um canto e não disse nada, apenas olhou para Morgan com olhos que demonstravam medo. Morgan acabou virando-se para o garoto e pedindo se estava tudo bem.
- Oi! Ah! É um alívio saber que você não está hipnotizado igual aos outros! - respondeu o garoto.
- Hipnotizado? - perguntou Morgan, confuso.
- Sim! Eu estou com medo. Hoje de manhã meus três tutores estavam normais, mas depois que fomos almoçar, dois deles voltaram assim, esquisitos, e o outro saiu da sala e não voltou mais! Eu confesso - o menino baixou o tom de voz para um sussurro - me escondi no banheiro e fiquei lá a tarde toda, espiando por uma fresta na porta, e o pior de tudo é que os meus tutores não fizeram nada! Mal se moveram! A tarde toda!
- Calma. Você tem certeza disso? - perguntou Morgan, segurando-se para não rir do outro rapaz, até que lembrou-se da recepcionista e das outras pessoas na recepção. - Peraí, esses seus tutores... Eles por acaso estavam meio robóticos? Sem falar nada e com olhares vagos?
- Sim! Você também viu pessoas assim? Eles só podem estar hipnotizados! isso me assusta! - disse o jovem, tendo um calafrio de medo.
Neste momento, as portas do elevador se abriram e ambos os garotos caminharam para fora, continuando a conversa.
- Agora lembrei que a moça da recepção agiu estranhamente mais cedo. - Morgan apontou para a recepcionista, que continuava na mesma posição que estava mais cedo. - E vi outros dois homens sentados, praticamente imóveis, ali naquelas cadeiras. Será que está acontecendo algo? -
- Não sei, mas essas pessoas estão me dando medo! Sem falar no chamado que teve hoje de manhã. Anunciaram pelos auto-falantes de todos os setores, pelo que sei, que haveria uma reunião geral, então todo mundo saiu e ficamos só eu e meus tutores, já que eu não fui efetivado ainda.
- Ah, então há mesmo uma reunião.
- Sim. Como assim? Você não notou que sua sala tinha menos pessoas?
- Notei sim, é só que... Deixa pra lá. - Morgan ficou envergonhado de contar sobre seu aniversário.
Eles então atravessaram o saguão e Morgan foi para o ponto de ônibus, tal como fazia todos os dias, enquanto o outro garoto foi pelo lado oposto, dizendo um "tchau" salpicado de medo. No caminho ele não pôde evitar de reparar nas pessoas, a maioria delas parecia normal mas ele viu quatro pessoas agindo estranho, olhando fixo para frente e sem expressão nos rostos. Logo passou seu ônibus, e Morgan parou-o, querendo chegar logo em casa.
  No caminho, Morgan pensou e repensou sobre os acontecimentos do dia e por fim, após pensar em tudo que acontecera e no quão estranho tudo parecia, decidiu não utilizar mais seu Porta-Mentes, pelo menos até que pudesse falar com alguém da Mind Corporation. Ele então pensou em falar para seus pais fazerem o mesmo, e isso lembrou-lhe de sua mãe.
A mãe de Morgan era uma senhora estressada por natureza. Mesmo tendo o Porta-Mentes para depositar seus pensamentos estressantes, ainda era difícil para ela conter o estresse. Convencê-la a deixar de usar o Porta-Mentes, mesmo que temporariamente, seria algo difícil, mas Morgan era um rapaz cauteloso, e por sorte, adquirira esta característica de seu pai, então no momento em que explicasse para seu pai o que estava acontecendo, certamente seu pai o ajudaria a convencer a sua mãe.
Morgan logo chegou em casa, seus pais estavam na cozinha, com sorrisos enormes, segurando um bolo de aniversário feito pela mãe de Morgan, que tinha duas velas em cima, marcando o número dezoito. Quando o aniversariante entrou na cozinha, seus pais cantaram parabéns, e todos comeram o bolo e conversaram sobre diversos assuntos.
     Mais tarde, Morgan explicou o que acontecera no trabalho e falou para seus pais sobre sua ideia de que as pessoas pudessem estar ficando “robóticas” por causa dos Porta-Mentes. O pai de Morgan também ficou preocupado, tal como o filho previra, e decidiu guardar os Porta-Mentes de todos dentro de uma gaveta. Eles sabiam que a mãe de Morgan ia querer o Porta-Mentes de volta, então a gaveta que escolheu era uma com chave, guardaram os dispositivos dos três lá dentro e a chave ficou com o pai de Morgan.
Os três jantaram juntos. É desnecessário falar que o assunto principal da noite foi a abstinência de Porta-Mentes. Depois do jantar Morgan subiu para o seu quarto para fazer o dever de casa, mas não conseguia tirar os acontecimentos do dia da cabeça. Ele então lembrou-se de Zoe e sentiu um aperto. Poderia ela ter ficado “robótica” também?
Ele então ligou o computador e entrou no Blaah. Ainda confuso com a forma de utilizar o website, ele abriu a janelinha que dizia “mensagens” para tentar falar com Zoe. 
“Oi Zoe, como foi o resto do seu dia?” foi a sua mensagem inicial. Passaram-se trinta segundos sem que ela respondesse, então ele assumiu que ela não estivesse online no momento. Mandou então outra mensagem: “O meu foi bem confuso, acho que há algo de errado com os Porta-Mentes”.
No momento em que Morgan enviou a mensagem, apareceu no cantinho da tela, uma mensagem dizendo que Zoe estava digitando algo.
Ela lhe contou sobre o seu dia e de como foi um dia normal. Eles conversaram por horas e puderam se conhecer melhor, e Morgan tentou convencê-la a parar de utilizar o Porta-Mentes mas a garota riu e não se importou com isso. Eles conversaram até muito tarde, e depois, Morgan foi direto dormir.