terça-feira, 11 de novembro de 2014

Parte 2.2 - A descoberta

     O despertador tocou, marcando seis horas da manhã. Era sexta-feira e Morgan tinha aula. O jovem desligou o despertador e tateou ao lado de seu abajur, buscando o Porta-Mentes. Lembrou-se então de que seu pai havia guardado os dispositivos na gaveta da sala, e foi forçado a mudar a sua rotina diária. Normalmente, a primeira coisa que faria seria utilizar o Porta-Mentes mas hoje foi direto tomar café da manhã.
Quando seu pai ainda estava trabalhando, pai e filho faziam companhia um ao outro no café da manhã, mas desde que seu pai perdeu o emprego, Morgan se alimentava sozinho e então ia para a aula. E foi o que fez naquele dia.
     Geralmente ele prestava muita atenção no que era dito pelo professor, mas desta vez, muitas cosias estavam em sua cabeça e Morgan acabou passando todo o tempo da aula perdido em pensamentos sobre Porta-Mentes.
Ao sair da aula, Morgan notou que estava preocupado demais com o assunto dos dispositivos, e não tendo um para utilizar e livrar-se destes pensamentos, decidiu ir direto para o trabalho. Avisou seus pais que não iria estar em casa para o almoço, comprou um sanduíche no caminho, e seguiu para o ponto de ônibus, indo em direção à Mind Corporation.
Finalmente chegando ao seu andar, as portas do elevador se abriram para revelar um terço das pessoas que geralmente estavam ali, o que era melhor do que no dia anterior, mas ainda assim não era normal. Ele então olhou em volta e notou que felizmente seu chefe estava sentado em sua mesa habitual.
Morgan foi conversar com ele, começando por pedir onde estavam os outros funcionários do setor. George estava estranhamente alegre, como se tudo estivesse completamente normal, apenas respondeu à Morgan que o restante do setor não iria ao trabalho naquele dia. Morgan deu continuidade às suas perguntas, e começou a contar ao  supervisor sobre os Porta-Mentes que estavam com códigos diferentes do que deveriam, mas foi só quando apontou na direção dos dispositivos que notou que eles não estavam mais lá. Seu chefe disse que eles foram levados para reprogramação automática e completou dizendo alegremente e com um sorriso:
- Rapaz, porque você está tão preocupado? Não há nada de errado com as coisas, você está tirando isso de algum lugar em sua cabeça!
Apesar da alegria que o chefe demonstrava, Morgan podia sentir que havia algo de errado. O próprio contentamento desnecessário revelava isso, pois George raramente agia daquela forma. Por isso, Morgan falou:
- Senhor George, com todo o respeito. Ontem foi um dia muito estranho. Começou com um aviso de que não poderiam fazer update dos Porta-Mentes, depois, cada um dos Porta-Mentes estava com um código diferente que não condizia com nada que eu tivesse visto antes, e isso tudo sem ninguém no setor inteiro. Sei que sou só um estagiário, mas estou preocupado, e afinal, fiz dezoito anos ontem, eu já posso tratar de assuntos sérios de trabalho.
Seu chefe olhou em volta e imediatamente as paredes de vidro da sala escureceram, de forma que ninguém de fora pudesse ver que os dois estavam conversando. Imediatamente seu rosto alegre se transformou em uma feição preocupada.
- Você está certo, rapaz. É bobagem esconder isso de você já que você já notou sozinho. Sei que você não fez o update ontem e sugiro que você não o faça. Algo muito estranho está acontecendo, e ninguém sabe como nem porque. Passamos o dia ontem levantando possibilidades, e nem tínhamos notado a mudança nos códigos, eu só notei isso quando voltei para cá, e torci para que você não tivesse notado, mas sabia que eu estaria errado. Hoje pela manhã foi constatado que os Porta-Mentes estão se auto-modificando, e o número de dispositivos com este defeito está crescendo exponencialmente. Os efeitos que isso está causando nas pessoas é alarmante, mas ninguém pode saber que isto está sendo causado pelos dispositivos.
Morgan foi tomado por uma aflição enorme. Ele estava certo, e isso não era algo bom. Realmente havia algo de errado com os Porta-Mentes e naquele momento, o que James lhe falara estava soando mais preocupante do que nunca.
- Mas as pessoas parecem robôs sem sentimento! 
- Hey, eu estou aqui! - resmungou Tom ao fundo, sem que ninguém ligasse para ele e Morgan continuou:
- Isso me parece algo muito perigoso para a população, não podemos simplesmente ficar quietos e fingir que não sabemos de nada!
- Morgan, eu sei disso. Nós estamos desesperados atrás da solução deste problema, nos ajude com as pesquisas, mas por favor, não diga nada à ninguém por enquanto. Logo teremos de nos pronunciar, de qualquer maneira. Enquanto isso, lhe darei uns tópicos que levantamos ontem e gostaria que você pesquisasse a respeito, quanto mais informações tivermos, mais rápido solucionaremos este problema.
Um tanto quanto inconformado, Morgan aceitou o que o chefe lhe disse e foi para sua sala fazer seu trabalho. O fim da tarde chegou e Morgan se obrigou a ir para casa sem muitas novidades. No caminho, Morgan notou como o número de pessoas agindo estranhamente havia aumentado. Algumas estavam simplesmente paradas nas calçadas, outras andavam de trás para frente, e outras caminhavam roboticamente, mas todas estas com olhares vazios, como se não estivessem conscientes do que estavam fazendo.


O dia seguinte chegou, e pela primeira vez, Morgan ficou aflito por não ter de trabalhar, afinal, era sábado, mas ele estava realmente envolvido com os acontecimentos recentes da Mind Corporation e naquele momento preferia ir trabalhar de graça à ter de ficar em casa, mas infelizmente ele não tinha acesso à nenhuma sala nos finais de semana. Passou o dia ajudando seu pai a reorganizar o galpão de ferramentas.
Tanto Morgan quanto seu pai estavam cansados, mas só pararam com a atividade quando estava tão escuro que eles já não enxergavam. Ambos entraram em casa e foram tomar um banho, então comeram e sentaram-se com a mãe de Morgan na sala de estar.
     Estavam assistindo à televisão normalmente quando um chamado para um comunicado importante apareceu na televisão. Este comunicado pedia à toda população Horyana que descontinuassem o uso dos Porta-Mentes temporariamente, alegando que havia um erro nos dispositivos que estava afetando o cérebro dos usuários. A voz masculina do comunicado disse que a Mind Corporation afirmou já estar trabalhando para desfazer o erro, e que em poucos dias, voltaria ao normal.
“Não demoraram para se pronunciar, deve ser mais grave do que eu imaginava” - pensou Morgan.

Parte 2.1 - O trabalho

Após o término do almoço, Morgan foi trabalhar. No estágio, ele era um rapaz exemplar, se dedicava ao máximo às suas pesquisas e sempre fazia tudo que lhe pediam com perfeição. É claro que ele adorava o que ele fazia, Morgan, de fato, ficava contente enquanto estava no estágio, mas no fundo de sua mente, o inconsciente também fazia com que ele se dedicasse na espera de um aumento, para que pudesse realizar o sonho de ter um sonto o quanto antes. 
O ônibus parou, como sempre, a duas quadras de distância do seu local de trabalho. Morgan seguiu caminhando, e ao chegar em frente ao grande prédio de vidro, com quinze andares de altura e mais dez no subsolo, viu grandes letreiros verdes com prateado, escrito “Mind Corporation” que ficavam bem no topo do prédio. Morgan notou algo de estranho, sem saber exatamente o que. Ao mesmo tempo em que tudo parecia normal, tudo também parecia quieto demais.
Morgan entrou no prédio, deu oi para a recepcionista e escaneou sua mão para poder entrar no elevador. Apertou o botão do quinto andar, e o elevador lhe respondeu, com uma voz feminina: 
- Desculpe, você não pode acessar este andar. 
Não existiam catracas nem nada semelhante, pois todos os elevadores e portas, com exceção da porta de entrada principal, só funcionavam com a leitura das digitais, e dava acesso somente à quem fosse permitido.
- Ops, andar errado! - Morgan falou para si mesmo, apertando o número seis.
E lá foi o elevador, subindo seis andares. Morgan ficou olhando para a vista panorâmica da cidade que o elevador propiciava, tal como fazia todos os dias.
- Seja bem-vindo ao sexto andar! Espero que tenha um ótimo dia! - Disse-lhe o elevador quando Morgan saia pela porta, disperso, pensando em como os prédios da cidade estavam bem cuidados.
Foi somente quando Morgan chegou na porta de sua sala que ele notou que não havia ninguém no seu andar inteiro. Ele olhou para os lados, através das paredes de vidro que o cercavam, e não viu nenhum ser humano em todo o setor, apenas Tom, o robô assistente de seu chefe que estava esperando em sua sala.
- Bom dia, Tom. - Disse Morgan ao robô.
- Bom dia, Morgan - respondeu Tom com uma voz sintética quase perfeitamente humana - George, o seu chefe, me pediu para lhe dizer que todos no setor foram convocados para uma reunião de emergência, exceto os estagiários. Acho que seremos só você e eu aqui hoje. A propósito, parabéns! - e ao falar isso, vários papeis picados coloridos saíram por uma pequena abertura na cabeça de Tom, sendo automaticamente recolhidos quando chegavam ao chão, pois Tom, além de assistente, tinha um dispositivo semelhante a um aspirador, que servia para limpar o chão enquanto exercia outras tarefas.
- Obrigada por lembrar - respondeu Morgan, rindo - vou seguir para minha pesquisa, então.
A atual pesquisa de Morgan consistia em melhorar a qualidade e velocidade em que os pensamentos eram transferidos para o Porta-Mentes. Morgan e o restante do pessoal que trabalhava em sua equipe haviam descoberto uma forma de fazer isso, e estavam implementando em dispositivos para teste.
Morgan sentou-se e iniciou seu trabalho do dia, que consistia em pegar alguns Porta-Mentes e reprogramá-los, acrescentando a parte nova de código para que depois pudessem testar a eficiência dos mesmos. Logo que iniciou, Morgan notou que o código que estava no Porta-Mentes não condizia nem com o código antigo, nem com o novo, mas como aquele Porta-Mentes estava na pilha para reprogramação, ele ignorou a diferença e começou a inserir o novo código. O mais provável era que alguém tivesse feito algum outro teste com aquele dispositivo, e depois colocado de volta na pilha.
Cerca de uma hora depois, Morgan terminou a reprogramação do primeiro Porta-mentes, e pegou o próximo. Para sua surpresa, o segundo Porta-Mentes também não estava como deveria. Dessa vez, o código não condizia nem com o código antigo, nem com o novo, e nem com o código que estava no Porta-Mentes anterior.
- De novo? - perguntou Morgan a si mesmo - O que foi que fizeram com esta  pilha de Porta-Mentes?
Novamente, ignorando a diferença, Morgan começou a reprogramação e cerca de uma hora depois, terminou o segundo Porta-Mentes, passando para o terceiro.
Morgan pegou o próximo dispositivo e mais uma vez o código estava diferente de todos os outros. 
- Essa não. Tem algo de esquisito aqui...
Morgan deixou o terceiro Porta-Mentes de lado e começou a checar cada um dos outros da pilha. Havia mais ou menos quinze Porta-Mentes, e nenhum deles estava com o código que deveria estar. Além disso, cada dispositivo tinha um código diferente dos outros. Morgan imaginou que alguém estivesse lhe pregando uma peça, afinal, era seu aniversário e não era normal não ter ninguém no escritório mas então parou para pensar e notou que ninguém teria tempo de reprogramar todos em uma manhã, mesmo que fosse para lhe pregar uma peça, ainda assim, resolveu checar com Tom.
- Tom! - Chamou Morgan - pode vir aqui um instante?
- Em que posso ajudá-lo, Morgan?
- Você sabe se alguém atualizou estes Porta-Mentes hoje de manhã?
- Deixe-me checar meu banco de dados - respondeu o robô, ficando mudo por alguns instantes. Tom, fazia um serviço muito importante no setor onde ficava, ele guardava um registro das atividades de cada funcionário, incluindo horários de chegada e saída. - Não, ninguém mexeu nestes Porta-Mentes, Morgan. Mais alguma coisa?
- Sim, você sabe onde está acontecendo a reunião com o pessoal do setor?
- Morgan, eu tenho a resposta para a sua pergunta, porém, James - James era o chefe de Morgan e dono de Tom - marcou esta informação como confidencial, e eu só posso falar para quem é autorizado.
- Certo - respondeu o jovem, achando aquilo muito suspeito. - Vou checar na recepção.
O robô virou-se e voltou para a sua atividade anterior, enquanto Morgan dirigia-se para os elevadores. O que ele queria era que eles pregassem a tal peça de uma vez. Até que seria divertido, afinal, era seu primeiro aniversário na Mind Corporation, mas ele realmente queria fazer o seu trabalho e estava confuso com os códigos trocados dos Porta-Mentes.
Ao chegar no elevador, apertou o botão que levava até a portaria, mas logo que as portas se fecharam, decidiu checar no lugar mais óbvio. As salas de reunião no quarto andar, se realmente houvesse uma reunião, era lá que todos estariam.
Apertou então o botão de número quatro e quando as portas se abriram ele se deparou com diversas salas com paredes de vidro. Havia pelo menos dez salas, todas com grandes mesas ovais, feitas especialmente para reuniões. E todas vazias.
Morgan nem chegou a sair do elevador. E se o tivesse feito, teria ouvido diversas vozes e notado que na verdade, haviam reuniões estavam acontecendo ali, em cada uma das salas existentes. As paredes de vidro destas salas eram equipadas com SOF (Sistema de Ocupação Falsa), que consistia em projetar uma imagem nos vidros, fazendo com que as pessoas que olhassem de fora enxergassem coisas diferentes do que estava acontecendo. Os SOFs de todas as salas estavam no modo “vazio” e por isso, Morgan viu as salas vazias ao invés de ver as pessoas que as estavam ocupando.
O elevador fechou as portas e continuou a descida até o saguão de entrada. Ao chegar lá, Morgan se dirigiu até a moça no balcão de informações a qual ele cumprimentou no início da tarde.
- Oi. tudo bem?
- Oi - respondeu a moça de forma estranha, olhando petrificada para frente. Morgan olhou na direção que ela estava olhando, mas não viu nada demais. Apenas as portas do prédio, como sempre.
- Você saberia me dizer onde o pessoal do quinto andar está se reunindo?
A recepcionista virou a cabeça para olhá-lo de uma forma robótica e esquisita.
- Não - respondeu.
- Tem certeza? Moça? - A recepcionista continuava a olhá-lo com olhos vazios, com se estivesse desprovida de qualquer sentimento e só depois de alguns segundos é que respondeu.
- Sim, tenho certeza.
A recepcionista estava, de fato, agindo de maneira muito esquisita e quando Morgan olhou ao seu redor, viu que outras duas pessoas que estavam sentadas nas cadeiras da recepção também estavam completamente paradas e com aquele mesmo olhar vazio, olhando fixamente para algo que não existia. Morgan não deu muita bola, afinal, era o fim do mês e nessa época, mesmo com os Porta-Mentes, as pessoas começam a se preocupar com as contas.
- Essa aí ficou esquisita de repente - sussurrou o segurança, que saiu de seu posto para ir ao banheiro. - Se você quiser algo, melhor pedir a outra pessoa.
- Obrigada - respondeu Morgan. Na verdade, não havia com quem falar, o jovem queria saber onde estava o seu chefe e queria descobrir o que estava havendo. Porque ele não pôde fazer o upgrade, porque os Porta-Mentes estavam com códigos esquisitos e quem os teria programado  mas pelo visto, teria de esperar.
O garoto então voltou para o sexto andar, onde tudo continuava igual, ninguém havia voltado da tal reunião secreta.
O garoto resolveu que não iria reprogramar mais nenhum Porta-Mentes, iria esperar seu chefe para mostrá-lo o que estava acontecendo. Ele olhou em volta, procurando algo para fazer, e resolveu arrumar umas gavetas de arquivos.
Sua mente estava longe, pensando no que poderia estar acontecendo. Cada vez mais Morgan, achava que havia algo de errado com os Porta-Mentes, algo que não tinha nada a ver com a "reunião". Essa quase certeza se baseava tanto nos códigos mudados  quanto no upgrade que Morgan não fizera pela manhã. Morgan era um jovem muito, mas muito cauteloso, e e refletindo sobre isso, decidiu que não iria mais utilizar o dispositivo. 
A tarde passou e chegou a hora de Morgan ir para casa. Ninguém havia voltado da reunião até aquela hora. Ele se dirigiu aos elevadores e desceu, querendo chegar em casa o quanto antes. 
Alguns andares abaixo, o elevador parou e um garoto, com mais ou menos a mesma idade de Morgan, entrou porta a dentro. O garoto parecia assustado, se encolheu em um canto e não disse nada, apenas olhou para Morgan com olhos que demonstravam medo. Morgan acabou virando-se para o garoto e pedindo se estava tudo bem.
- Oi! Ah! É um alívio saber que você não está hipnotizado igual aos outros! - respondeu o garoto.
- Hipnotizado? - perguntou Morgan, confuso.
- Sim! Eu estou com medo. Hoje de manhã meus três tutores estavam normais, mas depois que fomos almoçar, dois deles voltaram assim, esquisitos, e o outro saiu da sala e não voltou mais! Eu confesso - o menino baixou o tom de voz para um sussurro - me escondi no banheiro e fiquei lá a tarde toda, espiando por uma fresta na porta, e o pior de tudo é que os meus tutores não fizeram nada! Mal se moveram! A tarde toda!
- Calma. Você tem certeza disso? - perguntou Morgan, segurando-se para não rir do outro rapaz, até que lembrou-se da recepcionista e das outras pessoas na recepção. - Peraí, esses seus tutores... Eles por acaso estavam meio robóticos? Sem falar nada e com olhares vagos?
- Sim! Você também viu pessoas assim? Eles só podem estar hipnotizados! isso me assusta! - disse o jovem, tendo um calafrio de medo.
Neste momento, as portas do elevador se abriram e ambos os garotos caminharam para fora, continuando a conversa.
- Agora lembrei que a moça da recepção agiu estranhamente mais cedo. - Morgan apontou para a recepcionista, que continuava na mesma posição que estava mais cedo. - E vi outros dois homens sentados, praticamente imóveis, ali naquelas cadeiras. Será que está acontecendo algo? -
- Não sei, mas essas pessoas estão me dando medo! Sem falar no chamado que teve hoje de manhã. Anunciaram pelos auto-falantes de todos os setores, pelo que sei, que haveria uma reunião geral, então todo mundo saiu e ficamos só eu e meus tutores, já que eu não fui efetivado ainda.
- Ah, então há mesmo uma reunião.
- Sim. Como assim? Você não notou que sua sala tinha menos pessoas?
- Notei sim, é só que... Deixa pra lá. - Morgan ficou envergonhado de contar sobre seu aniversário.
Eles então atravessaram o saguão e Morgan foi para o ponto de ônibus, tal como fazia todos os dias, enquanto o outro garoto foi pelo lado oposto, dizendo um "tchau" salpicado de medo. No caminho ele não pôde evitar de reparar nas pessoas, a maioria delas parecia normal mas ele viu quatro pessoas agindo estranho, olhando fixo para frente e sem expressão nos rostos. Logo passou seu ônibus, e Morgan parou-o, querendo chegar logo em casa.
  No caminho, Morgan pensou e repensou sobre os acontecimentos do dia e por fim, após pensar em tudo que acontecera e no quão estranho tudo parecia, decidiu não utilizar mais seu Porta-Mentes, pelo menos até que pudesse falar com alguém da Mind Corporation. Ele então pensou em falar para seus pais fazerem o mesmo, e isso lembrou-lhe de sua mãe.
A mãe de Morgan era uma senhora estressada por natureza. Mesmo tendo o Porta-Mentes para depositar seus pensamentos estressantes, ainda era difícil para ela conter o estresse. Convencê-la a deixar de usar o Porta-Mentes, mesmo que temporariamente, seria algo difícil, mas Morgan era um rapaz cauteloso, e por sorte, adquirira esta característica de seu pai, então no momento em que explicasse para seu pai o que estava acontecendo, certamente seu pai o ajudaria a convencer a sua mãe.
Morgan logo chegou em casa, seus pais estavam na cozinha, com sorrisos enormes, segurando um bolo de aniversário feito pela mãe de Morgan, que tinha duas velas em cima, marcando o número dezoito. Quando o aniversariante entrou na cozinha, seus pais cantaram parabéns, e todos comeram o bolo e conversaram sobre diversos assuntos.
     Mais tarde, Morgan explicou o que acontecera no trabalho e falou para seus pais sobre sua ideia de que as pessoas pudessem estar ficando “robóticas” por causa dos Porta-Mentes. O pai de Morgan também ficou preocupado, tal como o filho previra, e decidiu guardar os Porta-Mentes de todos dentro de uma gaveta. Eles sabiam que a mãe de Morgan ia querer o Porta-Mentes de volta, então a gaveta que escolheu era uma com chave, guardaram os dispositivos dos três lá dentro e a chave ficou com o pai de Morgan.
Os três jantaram juntos. É desnecessário falar que o assunto principal da noite foi a abstinência de Porta-Mentes. Depois do jantar Morgan subiu para o seu quarto para fazer o dever de casa, mas não conseguia tirar os acontecimentos do dia da cabeça. Ele então lembrou-se de Zoe e sentiu um aperto. Poderia ela ter ficado “robótica” também?
Ele então ligou o computador e entrou no Blaah. Ainda confuso com a forma de utilizar o website, ele abriu a janelinha que dizia “mensagens” para tentar falar com Zoe. 
“Oi Zoe, como foi o resto do seu dia?” foi a sua mensagem inicial. Passaram-se trinta segundos sem que ela respondesse, então ele assumiu que ela não estivesse online no momento. Mandou então outra mensagem: “O meu foi bem confuso, acho que há algo de errado com os Porta-Mentes”.
No momento em que Morgan enviou a mensagem, apareceu no cantinho da tela, uma mensagem dizendo que Zoe estava digitando algo.
Ela lhe contou sobre o seu dia e de como foi um dia normal. Eles conversaram por horas e puderam se conhecer melhor, e Morgan tentou convencê-la a parar de utilizar o Porta-Mentes mas a garota riu e não se importou com isso. Eles conversaram até muito tarde, e depois, Morgan foi direto dormir.