quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Parte 3.2 - A aventura

A grade já estava no chão, e uma escada de metal fora colocada abaixo da abertura na parede. Morgan subira os degraus e começara a enfiar-se pela abertura, tarefa que se mostrou difícil até para o garoto magrelo.
- Não se preocupe - avisou um dos pesquisadores do grupo - assim que você andar uns dois metros, o duto fica bem maior.
            Morgan então iluminou o local com a lanterna e constatou que aquilo era verdade. Pôde ver claramente que os dutos ficavam muito mais largos depois, mas isso ainda não o deixava tranquilo. Todos lhe falaram que não haveria problema algum em andar pelos dutos, mas Morgan ainda achava-os frágeis demais. Sua motivação fora as pessoas do lado de fora. Se ele não fizesse isso, quantas pessoas mais ficariam robóticas e estranhas, controladas pelos Porta-Mentes?
            Então lá foi ele, espremendo-se pela abertura na parede. Morgan já estava praticamente todo dentro do duto, apenas suas pernas ainda estavam para fora, quando um homem apareceu na porta, dizendo-lhes para esperar um pouco, pois novas descobertas haviam sido feitas.
Todos olharam-no, o homem então disse:
- Minha equipe conseguiu conectar com o computador por um breve momento, cerca de cinco minutos, não conseguimos muita coisa, mas descobrimos que dois dos dez núcleos de processamento do computador gigante estão queimados. Não faz sentido em mandar esse jovem até o computador sem núcleos novos para fazer a substituição. É claro que não podemos ter certeza, mas é possível que isto esteja causando o problema, então não custa tentar, já que alguém vai até lá, de qualquer forma...
            Todos concordaram com o homem e assim começou o processo de saída do duto, onde Morgan foi ajudado por James e Zoe. Cada um puxou o garoto por uma perna, para que ele pudesse sair mais rapidamente. Morgan mal entrara e já estava completamente sujo, quando saiu seu cabelo e sua camisa estavam todos cobertos de pó.
            James e o homem acabam sumindo pelos corredores do andar 15N, atrás de conseguir novos núcleos de processamento para o computador gigante. Morgan sacudiu o cabelo e bateu suas roupas para remover um pouco do pó, depois seguiu para o sexto andar, junto com Zoe e o restante das pessoas.
            Para Zoe, aquilo tudo era novidade, afinal, aquele era uma das construções mais tecnológicas de Hory. Enquanto todos conversavam, Zoe estava quieta olhando ao redor.
            Quando o elevador finalmente alcançou o sexto andar, todos saíram do elevador, Morgan falou para Zoe:
- É aqui que eu trabalho todos os dias. Mais especificamente naquela salinha ali - e apontou para o lugar.
- Esse lugar é tão legal! Eu nunca vi tantas paredes de vidro antes!
            Neste momento, Tom apareceu. Saiu de uma das salas à esquerda de onde estavam.
- E este é Tom. O robô de James.
- Aaah! Ele é tããão bonitiiinho!
            Tom então chegou, dizendo:
- Olá Bruno. Olá Mark. Olá Judy. Olá Cindy. Olá Rafael. - nem mesmo Morgan sabia que esses eram os nomes do pessoal da equipe de pesquisa. O robô então virou na direção de Morgan e Zoe e continuou - Olá Morgan. Olá… Uhmm, você eu não conheço, não está nem nos meus registros de temporários... Como entrou aqui? É um intruso? INTRUSO! INTRUSO! INTRUSO! - o robô começou a gritar enquanto soava uma sirene. Uma pequena lâmpada vermelha em sua cabeça começou a piscar, e todos naquele andar olharam na direção deles.
- Tom, para! Esta é Zoe, minha amiga. James permitiu que ela entrasse no prédio. Para!
            O robô então parou com os barulhos, mas virou para Zoe e seguiu fazendo perguntas:
- Por que então você não tem uma credencial? Heim?
- Eu, eu nem sabia que eu tinha que ter uma credencial! James estava com pressa e me disse para ir junto, e eu fui!
Tom então acessou as câmeras de monitoramento e pôde ver e ouvir o momento em que James permitiu o acesso de Zoe, então ele mesmo iria fazer um crachá de autorização para a garota. Zoe seguiu o robô um pouco confusa, mas logo ela estava rindo e conversando alegremente com o serzinho de lata.
Enquanto Zoe fazia sua credencial e se familiarizava com o local, Morgan foi procurar James para ver se eles tinham novidades a respeito dos núcleos. James estava em sua sala, conversando alegremente com o rapaz que havia levado as notícias sobre os núcleos. Pelo jeito tudo parecia ter dado certo. Assim que Morgan apareceu na porta da sala, os dois olharam-no e James já foi falando:
- Morgan! Temos boas notícias! Conseguimos achar dois núcleos do mesmo modelo para substituir no computador. Eles estão a algumas horas de distância, mas um pessoal já saiu com um sonto voador para buscá-los. Acho que em cerca de duas ou três horas eles estarão de vota!
- Que bom! - respondeu Morgan - Fico feliz que tenham encontrado! Vou tentar descobrir mais sobre os dutos, então.
            Morgan, na verdade, estava detestando esta ideia. Ele não estava nem um pouco contente por ter de se arrastar por túneis pequenos e sujos durante uma quantidade relativa de tempo. A única coisa que fazia com que ele fosse, era saber que ele evitaria que mais pessoas sofressem por causa dos Porta-Mentes.
            Apesar de não terem a planta dos dutos de ventilação que levavam ao computador, Morgan e Zoe começaram a olhar as plantas dos dutos do restante do prédio para poder ter uma noção de como eles eram. Novamente viram o que a equipe de pesquisadores já tinha falado para Morgan, que todos os dutos são mais estreitos próximo às saídas, mas que são mais espaçosos nas extensões.
- Você não se importa de se arrastar por esses dutos sozinho? - perguntou Zoe de repente.
- Bem, não posso dizer que estou contente, mas tenho de fazer isso. - Respondeu o jovem.
- Morgan, eu também quero ir até o computador.
- O que? Não, Zoe, essa não é uma boa ideia… - respondeu o rapaz rapidamente.
- Por que não? Eu não gostaria de entrar nesses dutos sozinha! Você nem sabe direito como chegar ao lugar, vai ter que fazer o caminho todo sozinho carregando os dois núcleos. Tom me disse que eles são bem grandes! Eu quero ajudar. Queria ir com você.
- Zoe, não sei se é uma boa ideia, nós nem sabemos se é seguro, estes dutos são antigos.
- Por isso mesmo! Se algo acontecer, pelo menos somos duas pessoas!
            O garoto ficou pensativo. A garota não estava falando nenhuma mentira, mas ao mesmo tempo era perigoso demais e ele não sabia tão bem como lidar com garotas. E se ela visse uma aranha nos dutos e começasse a chorar, o que ele faria?
            Morgan não teve tempo de responder à sua própria pergunta, pois James apareceu na porta da sala com um sorriso de orelha a orelha, dizendo-lhes que os núcleos chegaram.
- Que bom, James! E olha só, nós também temos novidades. Eu vou com Morgan até o computador! - disse Zoe.
- Mas que beleza! Acho uma ótima ideia! Vamos lá, então! - respondeu James antes mesmo que Morgan pudesse abrir a boca para falar.
            Morgan não estava contente com isto, mas acabou não falando nada, se ela realmente queria ir era melhor que fosse com ele, apesar de parecer loucura, ela estava certa também, ele ir sozinho seria uma tarefa difícil e ele até que gostava da ideia de ter uma companhia.
            Eles então desceram para o andar 15N, e ao chegar, foram para a pequena e antiga sala novamente. A escada ainda estava lá e sobre a mesa encontravam-se duas caixas de papelão, segundo James, eram os novos núcleos de processamento. As caixas não passavam pela abertura do duto de ar, portanto precisaram abri-las e levar os núcleos sem a embalagem, o que significava que tinham que tomar muito mais cuidado.
            Levaram alguns minutos para organizar-se, pegaram as lanternas e as plantas e começaram a tentar passar pela entrada do duto de ar. Primeiro foi Morgan, o garoto disse que era melhor que ele fosse à frente, pois seria mais seguro para Zoe, mas a verdade é que ele não ficaria nada confortável em ter de olhar o bumbum da garota por todo o caminho. Ele teve mais facilidade em entrar no duto, pois já tinha ideia de onde segurar-se e apoiar-se, Zoe levou uns minutos a mais, mas conseguiu entrar sem grandes problemas.
            Para saber quais dutos levavam até o computador eles usavam as plantas de dutos como um mapa. Marcaram a sala por onde entraram e marcavam cada vez que o duto se dividia. Se alguma dessas divisões não estivesse na planta, eles sabiam que era por ali que deviam seguir.
            Arrastar-se por canos não era um processo rápido, Zoe e Morgan moviam-se o mais rápido possível, mas ainda assim lentamente, enquanto conversavam sobre qualquer coisa e conheciam melhor um ao outro. Depois de uma hora, os garotos ainda não haviam chegado ao computador e não faziam ideia de quanto ainda faltava. Zoe achou que o ar estava mais pesado, mas difícil de respirar, mas imaginou que fosse por causa da poeira e não falou nada.
            Cerca de cinco minutos depois que Zoe fez essa constatação, Morgan notou que o duto estreitava-se novamente. Isso era um bom sinal, significava que estavam chegando.
            Somente quando ele chegou perto da grade é que se deu conta de que sair do duto por ali seria muito mais difícil que entrar. Ele estaria de frente para a saída e a probabilidade de cair de cara no chão era muito grande.
            Morgan removeu a grade de proteção e espiou pela abertura. Ambos ouviam um barulho de máquina, mas o lugar estava tão escuro que Morgan não enxergava praticamente nada, só enxergava uma silhueta alta de algo que deveria ser parte do computador, e isto porque alguma coisa verde brilhava atrás daquelas peças. O garoto então deixou o núcleo que levava para trás e saiu lentamente pela abertura. Assim que ele passou até a cintura seus medos se confirmaram, a gravidade empurrou-o para baixo e só o que o garoto pôde ver foi o chão se aproximando muito rápido.
- Você está bem? - perguntou Zoe.
- Aham. Dê-me os núcleos e então eu te ajudo a sair.
            E assim fizeram. Morgan pegou os núcleos e o restante das coisas que haviam levado, colocou tudo no chão cuidadosamente e ajudou Zoe a sair do duto, com muito mais sucesso do que ele saíra. Morgan notara o quanto o ar parecia pesado e difícil de respirar, mas achou que fosse a sua ansiedade.
            Os dois então pegaram suas lanternas e olharam em volta. Agora sim podiam ver o grande computador, que ocupava a sala toda, exceto o espaço onde caminhavam. Parte do computador era circular e estendia-se para o meio da sala, dividindo-a em duas partes. Era nessa parte circular que ficavam os núcleos de processamento.
Zoe deu a volta no computador, em direção à luz verde, e para a sua surpresa, viu uma porta não muito grande com uma placa escrito “SAÍDA” imediatamente acima.
- Morgan! Uma saída! - gritou a garota, extremamente contente e indo em direção à porta.
- Que ótimo! - respondeu o rapaz, já tentando achar os núcleos queimados - Pelo menos não teremos que voltar pelos dutos apertados!
            Zoe então tenta abrira a porta sem sucesso.
- Não abre? - perguntou Morgan, ouvindo o barulho que Zoe fez.
      - Não. - respondeu a garota, desapontada - mas peraí, tem um pequeno monitor aqui ao lado.
            A garota olhou para a pequena caixinha grudada na parede, bem ao lado da porta. Ela dizia: “PORTA LACRADA PELO SISTEMA”.
- Morgan, acho que vamos ter de voltar pelos dutos mesmo. Pelo jeito este computador aí é que trancou a porta.
            E com isso ela foi ajudar Morgan a procurar os núcleos queimados. Zoe se sentia estranhamente cansada. Não que ela não esperasse que arrastar-se pelos dutos não fosse cansá-la, mas ela estava anormalmente cansada, tanto que poderia deitar no chão e dormir ali mesmo.
- Zoe! Achei um! Me ajuda aqui? - falou Morgan animado e Zoe foi rapidamente ajudá-lo a remover o núcleo queimado e substituir com um dos novos.
            Após fazer a troca, Zoe voltou para o lado da porta, em busca do segundo núcleo queimado, enquanto Morgan terminava de olhar os que estavam do seu lado. Por sorte, a busca não durou muito. Morgan olhou o núcleo seguinte do que recém haviam trocado e ali estava o segundo núcleo queimado.
- Zoe! Achei! Me ajuda de novo! - novamente falou Morgan animado, até que enfim eles poderiam ir para casa!
            A garota não respondeu.
- Zoe! - chamou Morgan novamente enquanto dava a volta no computador.
            Morgan mal deu a volta e ficou apavorado. Zoe estava caída no chão. Ele foi rapidamente até ela e notou que a garota estava respirando, mas estava muito branca. Morgan então se apressou para trocar o segundo núcleo e pedir socorro.
- Por que diabos não pensamos em trazer algum dispositivo para comunicação? - falou Morgan para si mesmo enquanto substituía rapidamente o dispositivo. - Isso foi muita, muita burrice, eu não devia ter deixado Zoe vir também. Sabia que não era seguro. Pronto, só encaixar aqui e…
No exato momento em que Morgan encaixou o núcleo novo, um barulho de trava veio da porta de saída. Ele correu até lá e viu a seguinte mensagem no monitor: “PORTA ABERTA”.
O garoto abriu a porta rapidamente, querendo tirar Zoe dali o quanto antes, uma lufada de ar fresco e leve entra pela porta, mas ele se depara com uma sala minúscula. Usando a lanterna, ele pôde ver que a sala era uma espécie de poço, com uma escada de metal fixada em uma das paredes. Olhando para cima podia-se ver uma luz fraca entrando.
Morgan levou Zoe para a sala arejada e escorou-a na parede. Pegou sua lanterna e subiu as escadas o mais rápido que pôde, ainda assim, levou um minuto inteiro para chegar ao topo. Deparou-se então com uma grade um pouco maior que a saída de ventilação, mas somente o suficiente para uma pessoa de tamanho normal passar. Parecia fazer séculos que ninguém utilizava aquela passagem, tamanha fora a força que Morgan teve que fazer para abrir a grade. Quando conseguiu, saiu para uma salinha tão antiga quanto aquela pela qual entrara, também com cara de escritório, algumas caixas com papeis espalhavam-se pela sala, mas não parecia que pessoas frequentavam o local com frequência.
A porta tinha uma abertura de vidro, e era de lá que vinha uma luz fraca. Morgan chegou perto da porta e constatou que estava no fim de um corredor, tentou abrir a porta, mas estava trancada, então começou a bater na porta e gritar por socorro. Ele não sabia o que acontecera com Zoe e nem por quanto tempo ela sobreviveria naquele estado.
Logo apareceram James e o restante do pessoal, saindo de uma sala algumas portas para a esquerda. Eles também viram que a porta estava trancada, por isso disseram para Morgan afastar-se, pois iriam arrombar a porta.
Quando a porta se abriu, Morgan falou sobre Zoe e os enfermeiros do prédio foram chamados. Em questão de minutos eles apareceram no andar onde estavam, e desceram pela abertura do chão. Os enfermeiros logo gritaram pela passagem, dizendo que Zoe estava bem. Segundo eles, a garota desmaiara por causa da baixa taxa de oxigênio na sala, e logo que ela recebeu a máscara, retomou a consciência. Em cerca de cinco minutos ela já estava subindo pela escada.
- Agora vem a pior parte - disse James - esperar!
E assim fizeram. Esperaram e monitoraram diversos Porta-Mentes durante três dias, nenhum deles havia se modificado. Parecia-lhes que o problema realmente fora solucionado. Só queriam esperar algum tempo mais para avisar aos Horyanos que os Porta-Mentes eram seguros novamente.
Enquanto isso, Morgan e Zoe conversavam todos os dias. Era mais do que Morgan já tinha conversado com qualquer pessoa antes e ele estava se sentindo estranhamente feliz com isso.
            Mais três dias se passaram, e um comunicado foi ao ar em todos os meios de comunicação, enquanto isso, Morgan e Zoe reuniam-se no sexto andar da Mind Corporation, comemorando o sucesso da operação. O comunicado dizia:
            “Caros cidadãos de Hory. Viemos alegremente avisar que os Porta-Mentes podem voltar a ser utilizados com segurança. Pedimos desculpas pelo grande inconveniente causado pela descontinuidade do uso dos dispositivos, e agradecemos pela compreensão. Mind Corporation.”

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Parte 3.1 - A Solução

Chegou a segunda-feira, neste dia Morgan não tinha aula, mas a ansiedade estava tomando conta do pobre garoto, que acabara se envolvendo inteiramente com a situação e decidira ir para o trabalho ainda de manhã.
Desceu as escadas até chegar à cozinha para que pudesse comer algo antes de sair mas quando pisou na sala, Morgan parou por um breve instante, lembrou-se de Zoe. À sua maneira, a garota havia se recusado a parar de utilizar o Porta-Mentes, mas isso fora antes do comunicado público, será que agora ela já havia parado de utilizá-lo?
“Mas então porque ela não me respondeu?”
No dia anterior, Morgan mandara uma mensagem no Blaah, apenas perguntando como ela estava, e ela não havia respondido.
“Será que ela também ficou robótica, igual àquelas pessoas?”
O garoto não conhecia Zoe completamente, mas já conhecia o bastante para ter notado sua personalidade forte. O melhor que Morgan podia fazer era esperar pela resposta de Zoe, ou ela iria achá-lo chato demais.
Morgan então seguiu para a cozinha, tomou café da manhã e saiu de casa.
Foi somente quando chegou perto da parada de ônibus, onde o movimento de pessoas era maior, que Morgan viu a dimensão do problema que estavam enfrentando. Mais ou menos metade das pessoas que estavam nas ruas agia de forma estranha. Aqueles mesmos sintomas estavam envolvidos, pessoas paradas, pessoas olhando fixo para algum lugar, pessoas respondendo às perguntas monossilabicamente, somente quando questionadas.
Ver isso assustou o garoto. Neste momento, ele agradeceu mentalmente ao seu pai por ter trancado os Porta-Mentes da família, ou certamente sua mãe seria uma destas pessoas estranhas que ele agora via nas ruas, e possivelmente ele e seu pai também.
O grande problema que fazia cada vez mais pessoas ficarem assim parecia ser a comodidade, que gerou um vício. Como falei no início da história, os Porta-Mentes foram criados porque os Horyanos realmente necessitavam deles e atualmente não havia um habitante de Hory sequer que não utilizasse o dispositivo diversas vezes por dia. Com isso, as pessoas tornaram-se incapazes de lidar com seu estresse sem o tal aparelhinho. Na situação pela qual Hory está passando, muitos se recusam a parar de utilizar o Porta-Mentes, afinal, todas as preocupações teriam que ser pensadas pela própria pessoa e isso era algo inimaginável para estas pobres pessoas. Além disso, nunca antes a Mind Corporation teve algum problema de qualquer tipo com os Porta-Mentes, o que fazia as pessoas pensarem “não é nada, logo vão arrumar” e todos simplesmente ignoravam os sintomas bizarros das pessoas ao seu redor.
Morgan chegou em frente ao prédio, adentrou a portaria e fez o procedimento de escaneamento das digitais. A recepcionista continuava lá parada, da mesma forma como estivera na sexta-feira, e Morgan perguntou-se se ela havia passado o fim de semana inteiro ali daquela forma.
Subiu até o seu andar e encontrou a mesma quantidade de pessoas que estavam presentes na sexta. Claramente, nenhuma daquelas pessoas estava usando o Porta-Mentes. Morgan pôde sentir o estresse naquela sala, como se ele fosse tangível.
Foi então falar com James, cujas expressões mostravam exaustão. James lhe disse que a maior parte daqueles pesquisadores e cientistas haviam passado o final de semana inteiro ali, tentando achar a solução do problema, todos cochilaram um pouco em suas cadeiras, e este foi o máximo de descanso que tiveram mas ontem, no fim da tarde, finalmente eles haviam descoberto algo.
- Existe algo que não sabíamos que existia. Praticamente ninguém deste prédio imaginava. - disse James enquanto Morgan ouvia atentamente - Nós descobrimos que os Porta-Mentes são, de certa forma, controlados por um computador central.
- O que? - Respondeu o jovem, incrédulo.
- É isso mesmo que você ouviu, jovem. Os Porta-Mentes podem ser programados individualmente, como se fossem independentes uns dos outros, mas acabamos de descobrir que por algum motivo, os dispositivos se conectam com um computador gigante, que está situado abaixo do andar 15 negativo, ele utiliza tecnologias antigas, e por isso ocupa toda a extensão do prédio. Falamos com pessoas de todos os setores, reunimos os chefes de todos os andares e todos alegam não saber de nada.
- Impossível! Isso não faz sentido! - Morgan começara a ficar levemente histérico com as novas notícias - Esses chefes, todo o pessoal dos outros setores, alguém deve saber de alguma coisa, eles devem estar mentindo, alguém tinha de saber sobre este computador. Além do mais as pessoas que ficam no andar 15N já devem ter visto ou escutado algo!
- Calma, Morgan. - respondeu James - Tudo isto já foi considerado. Deixe-me contar tudo o que já fizemos.
James então inteirou Morgan do assunto. Começou falando que no sábado, alguns pesquisadores de outros andares juntaram-se a eles, tentando unir mais cabeças para encontrar o problema, dividiram-se em grupos e foram atrás de solucionar o quebra-cabeças. Ainda no sábado à noite foi descoberto que a causa de os Porta-Mentes estarem se auto-modificando era um sinal que estavam recebendo. Ao rastrearem este sinal, todos ficaram surpresos por descobrir que a localização indicada era exatamente o local onde ficava o prédio da Mind Corporation. Sendo assim, cada equipe transformou-se numa equipe de busca e saíram pelo prédio, procurando o local exato da emissão do sinal. Foi assim que chegaram ao andar 15N e o indicador ainda mostrava que o sinal estava mais abaixo. Todas as pessoas que trabalhavam naquele andar foram entrevistadas, por assim dizer - duas pessoas ficaram encarregadas de tentar descobrir se alguém sabia algo, se já tinha visto ou ouvido algo relacionado com um andar a mais no prédio, mas pelo que parecia, ninguém sabia de nada.
O andar onde o computador estava não podia ser visto em nenhuma planta, nem pôde ser encontrado nenhum acesso a ele. Pelo que parecia, o computador fora implantado lá há muitos e muitos anos, quando o prédio fora fundado e caíra no esquecimento desde então. Ninguém sabia ainda qual era o propósito daquela máquina gigante, mas sabia-se que aquele computador era a causa dos problemas atuais.
Essa historia toda levou cerca de meia hora para ser contada à Morgan, que ouviu com atenção e tirou suas dúvidas durante a conversa. Morgan então juntou-se à equipe que normalmente trabalhava em seu andar e passou a ajudá-los na investigação sobre o motivo do sinal.
O celular de Morgan fez, de repente, um sinal estridente. Morgan não sabia do que se tratava, e quando pegou o aparelho pra ver o que estava acontecendo notou que havia uma mensagem no topo, dizendo: “Nova mensagem de Zoe”. Foi então que Morgan percebeu que o aparelho fizera download automático do aplicativo do Blaah e Zoe havia lhe mandado um recado.
“Oi Morgan. Estou bem, e você? Queria te pedir desculpas, agora eu vejo o quando essa coisa dos Porta-Mentes é séria, eu devia ter acreditado em você. Meus pais e eu paramos de usar o aparelho no momento em que vimos o recado na TV”
“Bem também. Não precisa se desculpar” - foi a resposta de Morgan - “Eu fico feliz que vocês tenham parado com o dispositivo”
“Sim” - prosseguiu a garota - “Também acho que foi uma boa. Mas ainda assim estou inquieta, queria poder ajudar, estou aflita de ver todas estas pessoas agindo estranho na rua”.
“Fique tranquila, estamos trabalhando para consertar isso. Mas agora tenho que ir, estou aqui na Mind ajudando o pessoal. A gente se fala depois”
“Está bem, até depois, Morgan”.
“Até, Zoe”
Sem saber muito bem o porquê, Morgan sentiu um enorme alívio por ter conversado com Zoe. Assim, ele voltou para suas tarefas, com ainda mais vontade de concluí-las.
Passou-se cerca de uma hora, e o celular de Morgan voltou a apitar. Ao olhar a mensagem, Morgan ficou um tanto quanto perplexo. O recado dizia: “Estou na portaria da Mind, pode vir falar comigo?”.
Morgan não hesitou nem por um instante, chamou o elevador imediatamente e desceu para o saguão de entrada. A porta do elevador mal abriu, e Morgan já avistou Zoe, em pé, ao lado dos sofás, olhando pela janela. 
- Zoe! - ele chamou, ao se aproximar.
- Oi Morgan! - Respondeu ela enquanto virava-se em direção a ele. - Eu estava entediada em casa e resolvi sair para fazer umas compras, mas parece que todo mundo está ultra estressado por não utilizar os Porta-Mentes, então eu resolvi passar aqui para ver como estão as coisas.
- Uhhh, estão indo… - Respondeu Morgan totalmente confuso - O pessoal conseguiu descobrir algumas coisas, mas ainda não solucionaram o problema.
- Legal. Vocês devem estar trabalhando duro nisso… Eu estou atrapalhando? - perguntou a garota, envergonhada.
- Não, não, eu estava lá ajudando o pessoal e… - as portas do elevador abriram-se de repente e James e mais cinco pessoas apareceram na porta. O humor de seu chefe era uma mistura de euforia com receio, como se estivesse escondendo algo. 
- Morgan! Venha conosco, acabamos de descobrir um possível acesso ao computador! - gritou James, segurando a porta do elevador.
- Mas… Eu… - Morgan não sabia se saia correndo ou se despedia-se de Zoe, olhou para os lados, confuso.
- Vamos logo! Traga sua amiga junto, se for o caso!
- Tá legal! - respondeu o jovem, saindo em direção à porta do elevador.
Zoe não estava entendendo nada, observou Morgan virar e sair e foi atrás. Morgan estava tão confuso quanto Zoe, mesmo que o pessoal tivesse descoberto algo, por que era tão importante que ele estivesse junto? “Até poucas horas atrás eu nem sabia o que estava acontecendo!” pensou o garoto.
Ambos entraram no elevador e James liberou a porta. Esta mal havia fechado quando James começou a falar, muito rapidamente:
- Morgan, esta equipe acaba de achar um possível acesso para o computador. Os dutos de ventilação. Não é uma maravilha? - disse, sorrindo - não sei como não pensamos nisto antes, não é? Todos os computadores precisam de ar limpo e fresco, este também!
- Uhm, claro, faz sentido. - respondeu Morgan entre as falas do chefe.
- Estes dutos não estavam nas plantas, obviamente, mas os rapazes aqui colocaram uma câmera robô nos dutos e descobriram dutos não mapeados no andar 15N. Os sensores de calor mostraram que o ar que passa por estes dutos é em média cinco graus mais elevado do que o ar dos outros dutos do prédio todo, ou seja, há uma enorme possibilidade de que estes dutos estejam resfriando o nosso gigante escondido.
As portas então se abriram, fazendo com que James parasse de falar um pouco. Todos saíram do elevador e seguiram o chefe por um longo corredor branco. Morgan não fazia ideia de onde estavam indo, nunca antes havia estado num andar tão profundo no prédio. Zoe estava mais perdida ainda, mas para ela, o lugar parecia ter saído de filmes de ficção científica.
Não demorou muito para que James começasse a falar novamente, dando mais detalhes técnicos sobre o computador, o qual ele não havia falado antes. Por fim, entraram em uma sala praticamente vazia, apenas uma velha mesa branca de metal e uma cadeira giratória com estofado verde puído se encontravam na sala.
            James então virou-se para o grupo de pesquisadores, dirigindo-se à uma moça.
- É nesta sala, certo? - perguntou ele.
- Sim, exatamente aqui. - respondeu a moça, apontando para o canto da sala, que se encontrava às costas de Morgan.
Ao virar-se, Morgan entendeu o porquê de terem chamado-o até o local, e o porquê da cara de vergonha de seu chefe.
Uma pequena grade tapava a abertura do duto de ar, muito próximo ao teto da sala. Em meio a tantos pesquisadores adultos, a maioria casados - entenda-se casados como bem alimentados -, Morgan era o único que teria alguma chance de passar por aquele estreito buraco.