terça-feira, 21 de outubro de 2014

Parte 1.2 - Personagem

     Era neste mundo semelhante à Terra – mas nem tanto – que vivia Morgan, um jovem rapaz, prestes a completar dezoito anos e, portanto prestes a ser considerado maior perante as leis de Hory.
     Se tornar maior de idade, significava quase a mesma coisa que significa para nós, terráqueos, hoje. Quando um adolescente completa dezoito anos no planeta Hory, ele passa a ser totalmente responsável pelos seus atos, pode guiar um sonto – o equivalente dirigir um carro –, comprar bebidas alcoólicas, etc. A grande diferença, é que ao ser de maior em Hory o Porta-Mentes recebe o upgrade do MdVI para o MdVA, e a partir daí, muda-se o modo como a pessoa realmente pensa nas coisas.
Morgan era um rapaz alto e magro. Devido à sua genética, era míope e usava óculos desde criança, e por ser muito tímido, nunca teve muitos amigos. Ele sempre fora o tipo de menino muito inteligente, que era motivo de orgulho constante para a família, mas que na escola era chamado de nerd, quatro-olhos, CDF, etc.
     Há dois anos, Morgan começou a estudar informática, e por ser mais inteligente e dedicado do que os garotos de sua idade geralmente são, se deu muito bem na área. Hoje, ele trabalhava como estagiário na Mind Corporation, a empresa que desenvolveu os Porta-Mentes, fazendo pesquisa para que o dispositivo, que era tão essencial para os Horyanos, ficasse cada vez melhor. Além disso, Morgan recém tinha passado no vestibular, e estava prestes a iniciar o curso de computação na universidade da sua cidade.
     Apesar de gostar muito de informática, Morgan tinha uma paixão que começou ainda na infância: os sontos. Morgan sempre foi apaixonado por sontos e o seu maior sonho era crescer e poder ter o seu sonto o quanto antes.  Porém, o pai de Morgan acabara de perder o emprego, e agora a maior fonte de renda da família eram os artesanatos de sua mãe, e junto com o emprego de seu pai, foi embora a mera possibilidade de ter um sonto só seu.
     Morgan não era de todo infeliz – afinal, o Porta-Mentes estava aí para não deixar isto acontecer – mas ele estava realmente chateado com o fato de que agora que tinha idade o suficiente, não podia ter o seu próprio sonto, e apesar de estar guardando o pouco de dinheiro que ganhava no estágio, não sabia quanto tempo levaria para que pudesse juntar dinheiro o suficiente para comprar o seu próprio sonto – mesmo que este fosse um herbívoro velho e enrugado.
     Era uma manhã fria de agosto e Morgan estava em frente ao local onde faria o upgrade. O processo geralmente não demorava, mas tinha que ser feito no dia do aniversário da pessoa, e o dono do Porta-Mentes apenas levava seu dispositivo até um posto de upgrade, onde já havia um cadastro de todas as pessoas que completavam dezoito anos naquele dia, então o aniversariante largava seu Porta-Mentes em uma esteira, que passava por uma pequena porta, e saia em outra pequena porta, ao lado da primeira. O processo todo levava, no máximo, cinco minutos, e era algo extremamente raro ter alguma fila nos postos de upgrade.
     Morgan, assim como outros dois terços da população Horyana, não se considerava um rapaz de sorte, não que ele tivesse algum motivo em especial para isso, mas a grande maioria das pessoas, tanto em Hory quanto na Terra e acredito que em qualquer outro lugar do universo, tendem a não notar as coisas boas que acontecem com elas, então todo mundo se considera azarado sem ter um motivo muito concreto para isso.
     Ao chegar no posto de upgrade, Morgan confirmou seu azar para si mesmo. Havia uma fila razoavelmente grande de pessoas aguardando para fazer o upgrade, todos estavam resmungando de indignação, mas ninguém estava realmente fazendo nenhum fiasco. Apesar de ter ficado desapontado, Morgan tomou o seu lugar na fila, havia umas dez pessoas em sua frente, mas ele não deu muita bola para elas, afinal, ele estava um tanto quanto nervoso, ele não se sentia seguro para fazer o upgrade. Para Morgan, isso era como dizer para todos que agora ninguém mais precisava poupá-lo de nenhum pensamento estressante, já que ele podia jogar tudo no Porta-Mentes e deu.
     - Hey, com licença! - disse uma pessoa na fila, atrás dele. 
     Morgan virou-se e ficou parcialmente paralisado. Uma garota linda o estava chamando. Com frequência ele olhava para garotas e as achava bonitas, mas esta garota, chamou mais a sua atenção do que qualquer outra antes. Ela era não era muito alta, sua cabeça batia mais ou menos na altura dos ombros de Morgan, tinha cabelos escuros e curtos e usava um par de óculos azul. Não havia realmente nada de mais na garota, mas por algum motivo, lá estava Morgan, paralisado. Tão paralisado que por um momento ele não conseguiu prestar atenção ao que ela falava, apenas ficou olhando para ela feito bobo, afinal, garotas bonitas nunca falavam com ele.
     - Está tudo bem? - Prosseguiu a garota, agora com cara de confusa.
     Ele então sacudiu a cabeça de leve e saiu de seu devaneio, notando a expressão estranha no rosto da menina.
     - Oi, ããã, sim, está tudo bem - disse Morgan.
     - Esta fila é para o upgrade do Porta-Mentes?
    - É, é sim. - Morgan estava todo atrapalhado e envergonhado, e ficou vermelho ao respondê-la. - Também vai fazer o upgrade hoje?
     - Aham, hoje também é meu dia. Meu nome é Zoe, qual é o seu?
     - M-Morgan.
     - Legal! Você já sabe o porquê desta fila? Nunca vi uma fila para upgrade antes!
     - Cheguei faz pouco tempo, ainda não sei o porquê da fila.
    Em seguida, uma moça loira com uniforme da Mind Corporation surgiu no início da fila, chamando a atenção de todos.
     - Pessoal! Desculpem por fazê-los esperar, nós sentimos muito, mas devido à problemas técnicos os upgrades dos Porta-Mentes não estão mais sendo feitos hoje. Entraremos em contato para agendar um horário de update especial para todos vocês. Novamente, pedimos desculpas.
A notícia gerou um burburinho geral da parte das pessoas que estavam na fila, e muitos deixaram o local reclamando, tal como pessoas de dezoito anos o fazem.
Morgan achou a explicação estranha, pelo que sabia, nunca, em toda a história da Mind Corporation, houveram problemas com o funcionamento dos upgrades.
     - Isso é esquisito - acabou sussurrando para si mesmo.
     - Porque? - Perguntou Zoe - Isso deve acontecer com uma certa frequência, afinal, deve ser algo complexo, lidar com os nossos pensamentos.
     - Nem tanto, eu trabalho como pesquisador estagiário na Mind Corporation, e nunca ouvi falar de problemas com uploads.
     - Ah, com todo o respeito, -Zoe falou com um sorriso - se você é um estagiário, não deve saber sobre tudo o que acontece lá dentro. E tem mais, eles nem te contariam esse tipo de coisa, afinal, você nem tinha dezoito anos ainda! Não é pra você ter estresses de trabalho!
Morgan normalmente não aceitaria isto como resposta, mas ver o sorriso de Zoe, o deixou hipnotizado novamente e ele acabou relevando o assunto.
     - Então acho que nos vemos quando formos fazer o update? - Perguntou Morgan.
    - Claro! De qualquer forma, vou te adicionar no Blaah - Blaah era a rede social do momento, muito utilizada pelos jovens.
     - Ok, até a próxima!
     - Até! - respondeu Zoe. Morgan ficou olhando-a até que ela sumiu, dobrando uma esquina. 
     Ele não falou para Zoe que não tinha uma conta no Blaah. Para ele, redes sociais não eram muito atrativas, porém, poder conversar um pouco mais com aquela menina seria algo interessante. Então, Morgan correu até sua casa e foi rapidamente até o seu quarto para criar uma conta no Blaah.
     O quarto de Morgan ficava no sótão de sua casa, portanto, ele tinha de subir duas escadas para chegar até lá. Era um quarto muito legal para um garoto de sua idade. Grande parte do espaço nas paredes, era coberto por pôsteres de filmes que ele gostava, tinha uma enorme televisão e puffs para ver filmes, mas ele foi logo para o canto oposto à sua cama, onde ficava o seu computador.
Conta criada, Morgan desceu as escadas, entrou na cozinha bem na hora em que sua mãe começou a chamá-lo para o almoço. Seu pai havia recém terminado de colocar os talheres na mesa e estava se sentando.
Foi um almoço normal, como os de todos os outros dias. 
     - Como se sente, agora que fez o update, filho? - Perguntou o pai de Morgan.
    - Não pude fazer o update hoje. - Seus pais fizeram cara de confusos enquanto ele falava - ninguém pôde, na verdade. Nos disseram que houve problemas técnicos, mas não sei exatamente o que houve. Vou perguntar  alguém lá no estágio.
O assunto prosseguiu com seus pais criando teorias sobre o que poderia ter acontecido, e foi assim até o final.

domingo, 12 de outubro de 2014

Parte 1.1 - Mundo

     Há cerca de 70 milhões de anos, na via láctea, existia um planeta esférico chamado Hory. Muito semelhante à Terra, este planetinha era populado por seres humanóides muito – mas muito mesmo – parecidos com os humanos Terrestres. Eles viviam em grandes conglomerados que cobriam toda a parte sólida do planeta e a parte não sólida era composta por água. 
     No geral, Hory era um planeta muito parecido com a Terra, porém, os Horyanos eram um pouco mais avançados intelectualmente do que os Terráqueos são hoje. Quando menciono isso, algumas pessoas querem saber o porquê. Existem vários motivos, mas vamos pegar um deles, a forma como eles solucionaram um problema que nós também enfrentamos atualmente na Terra: o excesso de carros que poluem o ar.
     Os veículos que eles utilizavam anteriormente eram muito semelhantes aos atuais carros Terrestres, e acabavam poluindo o ar que os Horyanos respiravam, tal como nossos carros fazem hoje, então os Horyanos desenvolveram em laboratório algo que chamavam de computadores mas que na realidade eram feitos de carne e osso. Estes veículos-computadores eram chamados de sontos e exstiam em diversos modelos. Pareciam-se com animais, pois tinham patas, rabos e cabeças, e por alguns momentos, pensavam por si mesmos. Alguns voavam, outros apenas andavam. E eles utilizavam como combustível diferentes materiais. Os herbívoros eram mais econômicos, eram movidos à folhas de árvores e enquanto não estavam sendo utilizados, estavam consumindo folhas nas ruas, já os carnívoros consumiam os modelos herbívoros. Os carnívoros eram mais potentes, mas acabavam dando um pouco mais de gasto aos donos, pois estes tinham de arcar com as despesas dos veículos que foram consumidos. Pensando bem, os sontos eram muito parecidos com os répteis o que os Terráqueos conhecem por dinossauros.
     Quando um Horyano queria ir para algum lugar, era só subir nas costas do seu sonto, cutucar a quinta vértebra da coluna três vezes, e dizer o endereço desejado, que o próprio sonto fazia o resto. Simples assim!
     Sem dúvida este sistema de veículos era muito legal e não causava danos ao meio ambiente, mas a coisa mais interessante de todo o planeta Hory, e que também mostra o quanto eram inteligentes, é o fato de que as pessoas podiam fazer algo bem diferente de tudo que conhecemos hoje: guardar seus pensamentos e suas consciências em pequenas caixinhas que chamavam de Porta-Mentes.
     Estas maquininhas eram bem simples. Eram brancas e tinham o tamanho aproximado de um sabonete comum. Para usá-las, bastava colocá-las sobre a cabeça e deixá-las ali por aproximadamente meio minuto, até que ficassem verdes e fizessem um “biiiiiiiip” de dois segundos que só podia ser ouvido no interior da cabeça do dono do Porta-Mentes. Os Horyanos costumavam fazer isso pelo menos 2 vezes por dia – geralmente pela manhã e à noite – para manter suas mentes com bastante espaço livre, mas não existiam limites de uso diário do dispositivo.
     O Porta-Mentes era utilizado a partir dos 4 anos de idade, pois era quando as crianças no planeta Hory começavam a ir para a escola. Antes disso, as crianças não tinham com o que se preocupar, pois só comiam, dormiam e brincavam o dia todo. Além do mais, estudos comprovaram que utilizar o Porta-Mentes antes dos quatro anos fazia com que a criança não aprendesse como deveria, já que ela não ficava com os pensamentos de aprendizado em sua cabeça o tempo todo. E aqui vai uma curiosidade: pelo menos 200 crianças entre 0 e 4 anos ficaram permanentemente lesadas quando este estudo foi feito, mas o governo disse ao povo que foi um lote de papinhas contaminadas, e tudo ficou bem. De volta ao assunto, quando uma criança começa a utilizar o Porta-Mentes, ele está no modo MdVI (Modo de vida Infantil) e ao se tornar maior de idade, é feito um upgrade para o MdVA (Modo de Vida Adulta).
     No MdVI, o Porta-Mentes suga menos pensamentos do que no MdVA, pois, apesar de nenhuma criança concordar com isso, os desenvolvedores diziam que as preocupações com a escola não eram tão estressantes quanto as preocupações do trabalho, e portanto, não necessitavam de um Porta-Mentes muito intenso.
     Como já foi dito, além de guardar pensamentos, o Porta-Mentes também guardava a consciência, ou seja, os pensamentos que entravam no dispositivo poderiam mudar, como se o dono estivesse pensando neles, mesmo que eles não estivessem realmente dentro da cabeça do dono. Parece complicado, mas com o tempo fica fácil entender, por exemplo: se um Horyano pensou que o novo corte de cabelo de sua vizinha era feio, e transferiu este pensamento para o Porta-Mentes, o pensamento podia continuar a ser pensado, mesmo que seu dono não pensasse mais nele, então, pode ser que quando o dono utilizasse o Porta-Mentes de novo, o pesamento não fosse mais de que o corte de cabelo era feio, mas sim de que ele era horrendamente feio.
     O Porta-Mentes era algo muito útil para os Horyanos, pois utilizando-o sobrava mais espaço na cabeça para seja lá o que quer que deixasse os indivíduos felizes – as pessoas deixavam no Porta-Mentes os seus problemas mais sérios, como os que tinham a ver com trabalho ou estudos, e mantinham os pensamentos do tipo “Que sabor de chá devo beber hoje?” ou “Pudim é uma palavra engraçada” em suas cabeças.
     Diferente do que parece, o Porta-Mentes não esteve presente desde o início da história dos Horyanos. Séculos antes, as pessoas eram assim como nós, Terráqueos, somos hoje. Tinham somente suas cabeças para guardar todas as memórias, todos os pensamentos, todas as preocupações, todos os nomes, todos os números de telefone – que por sinal, também funcionavam de maneira diferente, mas isso não vem ao caso – e também para pensar em tudo isso e mudar de opinião conforme passava o dia.
     Porém, chegou um momento na história dos Horyanos, em que eles estavam trabalhando demais e se divertindo de menos, e isso fez com que cerca de 90% da população de todo o planeta ficasse infeliz. Passaram-se anos sem que muita importância fosse dada para isso, até que o índice de homicídios causado por estresse e depressão subiu drasticamente, então iniciaram-se estudos urgentes em todo o planeta para tentar solucionar o problema.
     Vinte anos depois, o Porta-Mentes foi finalmente lançado para uso público no planeta Hory – vale ressaltar que apenas os 10% que não estavam extremamente estressados ainda restavam no planeta – e foi criado exatamente com o propósito de manter os pensamentos estressantes fora da cabeça dos Horyanos, para que os pensamentos não estressantes pudessem ser pensados com liberdade.
     Isso, de fato, solucionou o problema que Hory estava enfrentando, e em alguns séculos, o planeta já estava feliz e repopulado.

Atualizado em 20/10/2014.

Post sem história - Ideias

     Olá!

     Confesso que inicialmente fiquei contente com a ideia de que uma das avaliações da disciplina é escrever uma história, porém, assim que comecei a buscar inspiração, eu comecei com o que sempre acontece: ter um milhão de ideias ao mesmo tempo e não gostar de nenhuma.

     Comecei a escrever várias destas ideias, mas eu não estava contente com o resultado de nenhuma, resolvi deixar essa atividade de lado por uns dias, e quando retomei, comecei a reescrever a última ideia que eu havia tido, usando uma abordagem mais cômica do que dramática.

     Eis que surge a obra prima!

     Ok, pode ser que não se possa chamar de obra prima, mas ao menos eu me contentei com ela e já escrevi um pedaço, que virá no próximo post.

     Farei mais um "post sem história" se eu tiver mais alguma coisa para contar conforme a história for surgindo.

    Obrigada pela leitura! Volte sempre!